1.2.25

Continuar

Porque existe Deus. E existe beleza.

Sobre a auto-costura, parte II

Tecidos não cicatrizam. Precisam de remendo.
Mas o coração se desfaz e refaz todo momento.
Porque coração é coisa viva, coisa que nasce e renasce e transnasce sempre que precisa.
Graças aos laços, a gente não se desprende da vida e fica aqui.
Nem que seja por um fio.
O fio fino, a linha tênue, o fim da linha. 

Você só me disse "eu te amo" 999 vezes

E você também me disse que uma mentira dita mil vezes torna-se uma verdade.

4.4.19

só queria agradecer

depois que a última folha de outono cai,
enfim, é primavera.

(obrigada por ter aparecido.
e muito obrigada, de verdade, por ter ido embora.
agora, por completo.
agora, de vez.
agora, de verdade.
agora tenho a minha liberdade.)

7.12.16

O amor é isso tudo

O amor é isso o que acontece entre o seu olhar e o meu sorriso. O amor acontece nas nossas conversas randômicas, nas respostas inesperadas. O amor é isso o que acontece entre o meu olhar e o seu sorriso. Estar perto sem estar é amor. Trocar aquela camisa por outra, acredite, também é amor. Dizer que tudo bem, ligar pra dizer que vem, as vezes um réquiem. O amor é ser sincero e ir.

O amor é ir.

Mas só ir. Voltar não é amor. Porque o amor é a não-fuga. O amor vê o furação se aproximando e fica. Senta, espera, desespera. O amor ou vai e não volta ou não vai. Ou não vai e deixa de ser ou não vai e é. E fica sendo.

23.11.15

Sobre inundações

Teus olhos são um mar, amor.
Eu, barquinho de papel.

"Não hoje, não mais. Nem nunca, jamais."

Querido Orlando,

Eu ainda não estou pronta pra mudar a minha vida pra sempre. E não sei se devo pedir desculpas a meus pais, a Deus, ao cacto que deixei morrer à míngua ou a menina que, gentilmente, pedia a todos que amanhecessem. 
Mas eu me pergunto: Vale a pena amanhecer-se cinza? É possível começar o dia pelo lado avesso, Orlando? Se o dia amanhece nublado, ele emenda com a noite e a gente nem nota. Vai passando dia e noite e a gente não entende como o tempo anda se o ponteiro do relógio volta sempre pro mesmo lugar. Se o tempo fica dando volta, Orlando, porque eu também não posso voltar? Em que hora o ponteiro do relógio rebentou e eu fiquei perdida, com as mãos no bolso, sempre um passo atrás de onde eu queria chegar?
Talvez, se eu consertar as horas, conserte também o tempo. E aí pode ser que eu consiga alinhavar com a linha do tempo os muitos minutos que eu perdi tentando encontrar a hora certa do abraço, do sorriso, das mãos dadas, do sim e do não que eu nunca dei.

3.11.14

Sobre tempestades

Quando as ondas são bravias, mas navegar é preciso, eu me ancoro em uma certeza: há um porto nesse mar.

22.10.13

Sobre os olhares

Querido Orlando,

foi de tanto querer sonhar com os olhos fechados que eu comecei a me enxergar por dentro. E vi que não existe vendaval mais brando do que esse quando os olhos do outro tentam pousar nos meus. E quando procuram dentro desses meus olhos escuros de abismo qualquer sorriso que lhes dê remissão. Mas não encontram nem fresta nem raio de luz. Não encontram sequer um resquício de manhã. Por que esses meus olhos escuros de abismo têm medo de que o outro se perca neles e nunca mais se encontre. E enquanto o outro não se encontrar, nossos braços vão andar enlaçados atravessando as ruas da cidade. Os nossos passos rimarão em um caminho onde as flores - que não são de plástico - desabrocham em favor dos nossos versos. Nossos lábios esboçarão sorrisos tão límpidos, que até os passarinhos entenderão.
E eu não posso deixar isso acontecer, Orlando. Isso não pode acontecer enquanto eu, tão cheia de minhas razões, não consigo olhar pro outro e enxergar a sinceridade transbordando nas suas palavras. Não posso permitir que ele atravesse os escuros do meu abismo, que me ofereça flores. Não posso deixar que me olhe assim.

Então, eu peço: não me olhe assim, que o olhar do amor é desconcertante.

11.6.13

Inclusive eu

Tudo muda.
Muda o tempo.
Muda o mundo.
O tempo muda o mundo todo.
O mundo muda o tempo todo.
Todo mundo muda o tempo todo.

Eu, por exemplo

8.4.13

Nome-verbal

Glorinha tinha uma felicidade no nome: a de ser verbo.
Pois quando estava cheia de pernas por receber um elogio, saia dizendo pra todo mundo que "vida de Glorinha é assim mesmo: posso me Gloriar disso tudo sem deixar de ser eu".

19.10.12

Conselho sobre jardinagem

Para plantar girassóis não é preciso apenas as sementes. O plantio deve ser feito, acima de tudo, com tempo de sobra. Tem que se estar preparado quando os girassóis começam a contar histórias.

23.9.12

Intervalo

Sem que nada tenha começado, foi assim que tudo terminou. Os nossos caminhos apenas se cruzaram numa sucinta fração de segundos sem ao menos eu ter tempo de saber (pelo convívio) se você prefere andar na chuva ou se esperaria ela passar na cobertura de uma banca de revistas.
As nossas escolhas não foram minhas nem suas. Porque a gente sempre soube onde cada um queria chegar. E, bem, os nossos sonhos não eram os mesmos.
A gente se encontrou naquele intervalo que o tempo dá de vez em quando, quando a gente nem sabe mesmo quem é, o que quer, mas só sabe que tem que acertar. Não acertamos. Mas há algo de lindo nisso. Vê?, é como se o acaso tivesse proposto que mudássemos os nossos planos para que eles passassem a rimar. Não funcionou.
Mas olha, tudo pode mudar, desde que a gente não mude.
Se bem que não é isso o que vai acontecer.

6.6.12

Sobre a distância

Tudo é muito longe se a distância é maior do que os braços e não cabe em um abraço.

14.3.12

Sobre amanhecer-se

À medida que abriu os olhos, abriu também a manhã. E ao levantar os braços, estendeu por cima de si o céu, fazendo cair nos seus pés as estrelas erradias da última noite. Sorriu ao ver a revoada dos pássaros através da janela; ela mesma também estava voltando para o lugar donde partira. Durante a última noite, entendeu que qualquer ruído pode ser um trovão. Apoderou-se do silêncio, e não deixou nem que o pensamento falasse alto. Sentiu um aperto pela solidão das coisas e quis - embora em vão - segurar a lágrima que saltava dos olhos. Rompeu-se. Quando a tristeza é grande, como o mar, a lágrima é salgada. Inundou-se. Depois, deixou escoar de dentro de si os vestígios restantes da solidão. Desapegou-se. Seguiu o conselho: amanheceu-se, enfim.

14.2.12

Conselho

Quando só existe noite e eu me pergunto insistentemente se esse tempo não passa nunca, você chega de mansinho e me aconselha: Você tem que amanhecer, amor. Quando o sol nasce lá fora é porque já nasceu dentro de nós.