5.2.10

Do encontro

Sabem aquela menina ali, sim, à direita da árvore, de vestido amarelo? Isso! A do sorriso na face! Ela agora sorri, Senhores. Sorri porque. Estão vendo a bolsa de palha ao seu lado? Dentro da bolsa ela guarda a sua felicidade. Conheci aquela menina naquela hora da tarde em que faz muito vento, embaixo daquela árvore mesmo. Ora, mas isso não interessa. O que realmente interessa é que eu a conheci.
Não, a sua felicidade não era do tamanho daquela bolsa, era bem maior! Como caberia ali? Ora, é dobrável, é flexível, é simples. Um sopro e ela consegue fazer com que a felicidade seja imensa e ao mesmo tempo tão pequena. Tão simples como tomar um sorvete sentada no banco daquela praça, tão pequeno quanto aquele pombo ali no fio. No fio que balança e não causa medo. Cede. Mas o pássaro, e muito menos a menina, se preocupam: aquelas asas, senhores, se aquele animal as tem, é porque sabe que pode voar!

E a menina, que há muito não sorria, agora estampa a face com flores, cores, poesias. É a felicidade que ela aguardava a tanto tempo e que nunca encontrou nem na gaveta, nem na janela, nem embaixo do travesseiro.
Achou-a quando não mais procurava. E foi aí que achou o sentido da vida: esperar. Quando me falou isso também indaguei se cruzar os braços já havia lhe trazido alguma coisa. Engano, senhores. Engano. A espera dela consistia em aguardar o melhor. Em se guardar pra o melhor.  Foi aí que achou aquilo que está dentro da sua bolsa.

Implorei, roguei, cantei que me deixasse ver o que guardava com tanto apreço ali dentro. Clamei, chorei.
Confortou-me explicando coisas com poucas palavras. Toda a brevidade que possuía usou ali naquela frase que encheu completamente a minha alma.
Não vos digo (por não saber) o que guarda ali naquela bolsa, nem a frase (por ser só minha) que a menina sussurrou. Mas eu espero senhores, espero que esbarrem com aquela menina. Espero que o olhar dela também vos acerte. Espero poder um dia ocupar minha bolsa com uma felicidade como a dela.

3.2.10

Os dispostos se atraem

O boneco de lata estava ali na prateleira há muito tempo. Tanto tempo passou que ficou velho. Teve a péssima idéia de contar os dias, as noites, os anos e, agora, não conseguia mais perder a conta. E aí ficava triste, muito triste por que tudo passava, menos uma pessoa qualquer que o tirasse daquele sufoco. Alguém que lhe desse um coração, pra assim ele poder virar gente. Ele adorava gente.
Gente fala. Gente canta. Gente come. Gente anda. Gente dirige. Gente é muito importante (Tinha gente até que é presidente.). Gente estuda, escreve poema, compõe canção. Gente ama. Briga. Vai embora. Volta. Se arrepende. Gente sente. Gente pensa cada coisa, ele pensava.
Como ele se sentia triste se não tinha coração? Ora, não duvide! Gente muitas vezes se engana.
 E lá ficava o boneco de lata.
Enferrujado.
Amassado.
Abandonado.
Esquecido.
Sem graça.

Entravam e saiam pessoas daquela loja procurando carrinhos de controle remoto, bonecas que falavam, skates, mas nunca procuravam o boneco de lata. Ninguém nunca olhava pra ele nem pra dizer "que bonitinho!", "olha mãe, eu quero um desses!", "tão simpático", ou essas coisas que pessoas que tem coração dizem quando ele amolece por algum motivo.
Não tinha jeito. Era o seu triste fim, enfim.

Mas por que será que esse boneco não queria uma coisa mais fácil? Um coração, boneco? Sei lá por que, ora. Nem tudo no mundo é explicável.
Mesmo sendo tão desprezado, o fato era que ele havia decidido: queria alguém que pudesse lhe dar um coração. E haveria de encontrar alguém que quisesse lhe dar, não é verdade? Não dá pra entender algo tão óbvio? O boneco precisava de um coração urgentemente pra despejar no coração desse alguém todo sentimento que havia guardado no seu vazio feito de lata. Mesmo quando passava alguns meses sendo ignorado, pensa que ele desistia? Que nada. Botou na cabeça que ia encontrar um coração e não era do tipo de boneco de lata que se deixa abater pelas dificuldades que aparecem sempre.

Dias e dias passaram até que acordou ouvindo certos passos que já pensou ter ouvido antes. Talvez num daqueles sonhos nas noites de chuva em que se encolhia todo pra que a água não pingasse no seu corpinho frágil de lata. Era uma menina. Sozinha, magrinha, sem graça. Mas ele viu nela o coração mais lindo e mais espaçoso e mais disposto a receber sentimentos do que qualquer um que haviam entrando por aquelas portas.
- É ela! - pensou ele fazendo pinta pra que o notasse.
Estava ali pra escolher seu presente de aniversário. A menina mergulhou os olhos nas prateleiras, vidrou nas bonecas, avançou o olhar pra aquela bailarina, virou, e bateu. Bateu com os olhos nos olhos do boneco. Vibraram. Nenhum outro brinquedo conseguia ser tão expressivo como o boneco de lata.
- Eu quero aquele, mamãe.
O boneco de lata sorriu. Ela segurou-o junto do peito e saiu da loja como se carregasse o seu troféu. E por onde ia, levava o boneco. E tudo o que acontecia, contava ao boneco. E o boneco achou lugar no seu coração. Ele não podia andar, comer, falar, ou essas coisas que Gente faz. Mas podia dormir no coração da menina e compartilhar os seus sentimentos com ela.

- É louca - comentavam suas colegas. - Como é que essa menina foi querer logo o mais feio?
Nem todo mundo sabe que o verbo querer fica muito melhor de dupla. Um querendo de lá e outro querendo de cá viram dois que se completam.
 E quando isso acontece- dois quereres ao mesmo tempo - os sinos sempre badalam, os olhos piscam feito estrelas, os corações batem mais forte, razões perdem completamente o sentido, tudo vira maravilha em volta, a vida fica quase tonta e o resto não importa.
Pena que tinha gente que não entendiam a relação entre o boneco e a menina. Gente procura explicação pra tudo, justificativa, motivo nobre, benefício, julgamento. Perde muito tempo analisando. Dá importância além da conta a coisa menos importante que o momento.
Gente pensa demais de vez em quando.
Tanto é que tem gente que até hoje não entende quando vê a menina sorrindo sozinha agarrada com seu boneco de lata, juntinhos e felizes, e pensam: Que engraçado.

29.1.10

Das últimas palavras

As palavras que havia falado a ele ontem soavam como sussurros distantes ao seu ouvido. Palavras, gestos, expressões vinham a sua mente como se estivesse a assistir uma cena daquele filme. Não o final. Uma cena. Talvez uma das últimas...

E sentada à mesa num sábado onde nem a lua nem as estrelas a acompanhavam, e já um pouco tarde, tanto nas horas quando no arrependimento, a menina lembrava da sua decisão. Agora se perguntava e respondia para si mesma que sim, havia escolhido o melhor caminho daquela bifurcação. Havia se resolvido por esquecer tudo, todos, fechar a porta do jardim por um (muito) tempo e tentar restituí-lo.

Só esperava que o tempo ajudasse. Esperava o sol chegar. Gostava da chuva, achava até o inverno uma das melhores estações. A melhor, na verdade. Uma época maravilhosamente encantadora. Assustadora (raios! trovões!). Exuberante. Exuberantemente encantadora com seus sustos. Sustos esses dos quais ainda tentava se recuperar.

Cansou de escrever e repousou o lápis sobre a mesa. Num ato de desespero (da alma), passou as mãos pelos cabelos e deixou que elas escorregassem pela face úmida.
- Amanhã, quem sabe!
E não olhou mais para trás. Não até a hora em que dormiu e sonhou com o dia anterior.

4.1.10

Varal

Varal
"Arame tenso sob o sol
Quem vê amor ali?
Quarando, secando, esticado sob o sol
Pronto prá molhar de amor
Arame espesso risca o céu
Quem vê a dor ali?
Rasgando, rompendo, atravessando o véu
Pra descansar da dor
Rebenta a bolsa, revela ao mundo a cabeça
Quem tiver que mereça a coroa"

31.12.09

A menina que não sabia mentir

A menina admitia que não sabia mentir. Até tentava, mas era sempre surpreendida pela correnteza que saia da sua boca e levava a verdade ao ouvido do outro. Acho que é como quando a gente era criança e ia brincar de esconde-esconde. Lembra que ela, a menina, quando se escondia, e alguém estava a procurá-la, e chegava bem próximo, lembra como ela gritava? Era engraçado, todo mundo ria da menina que não sabia mentir.

Ofegante. Procurava conter a respiração com as mãos, juntinhas, formando uma concha (talvez quisesse ouvir o barulho do mar). Conseguia ouvir até o seu coração (Então era verdade que, sozinho e no silêncio, a gente ouve o coração?). E quando chegavam perto, mesmo sem vê-la, ela gritava. Talvez tivesse algum distúrbio mental.

E é por isso que ela, a menina, e eu, achamos que a gente sempre carrega coisas de quando éramos crianças: a forma de amarrar o cadarço, o olhar furtivo ao bolo de chocolate que tá lá na janela, ou o olhar frustrado quando recebia reclamações por ter mexido na caixa de costuras da mãe. E não é verdade? Mas agora, só o momento é diferente, embora ela sempre use as mesmas ferramentas.

do último II

O último tranforma, fazendo com que ele tome forma de ponto final.
Transforma o céu, o coração, e até mesmo as flores de plástico.
Porque no último, senhores, até o motorista ranzinza consegue e sabe dar uma boa gargalhada.

do último I

A menina, a essa altura do campeonato, e depois de tantos planos, e agora desfazendo-se de todos, vê que há uma falha. Sabe as descobertas que ela gosta de fazer (a menina)? Pois é, senhores, mais uma descoberta.
Ela agora abre a janela e respira. Não quer chorar no último.

30.12.09

Sobre o Ano Novo e a camisa

Tá vendo a gente? Tão assim, tão respirando esperança! É porque a gente pensa que quando os 365 acabam, acabam também junto com eles os problemas, e as fracas forças, e as caladas vozes, e as flores. Mas não vê que isso é verdade? É verdade! Acaba tudo, num tocar de cílios, e nem dá tempo respirar, e a gente já é ano novo, e a gente já sabe amar de novo, e a gente já é melhor. E a gente já consegue ver aquela roupa velha, que tava tão amarrotada de lágrima e tão rasgada como a alma, agora ela é lavada e remendada!

A mãe diz que roupa velha não remenda: o pedaço novo não combina com o que restou, é visualmente feio. E a camisa velha ela coloca no chão, lá na porta que dá acesso ao nosso quintal. Porque a camisa, senhores, a camisa não presta. Mas aí é que eu acho que a camisa é útil! E sabe o por que, colega? A camisa deixa de vestir corpo, onde era moldada, e agora é pano de chão e muda a sua forma toda vez que a mãe, quando volta do quintal porque tá lavando roupa, volta pra cozinha e lança tempero em panelas. Por que no chão, e precisando somente dele, e já idosa, e já rasgada, e já enrugada, recebe nova função. A camisa. Ela agora impede, já de tão acostumada, que a gente quando chega molhado do banho de chuva, saia molhando a casa de água e de lágrima do escorregão.

24.9.09

Das quedas

E o que há de tão errado na expressão da alma? O que é que se pode sentir e não se pode falar? O que é tão proibido assim? Afinal, quem proibiu? FALE, FALE. Às vezes, se cale.
É tudo questão de lei, de rotina, de peso.
É nada do que se pode falar, fazer, pensar!
Pra quê ser entendido? Pra quê ser aceito?
Quem precisa dos outros? Quem precisa de mim ou de você?
Prefiro eu cá, com os meu botões ainda sem casas. Prefiro EU.