29.5.10

Sabe Glorinha,

Só hoje eu vim entender como a gente se machuca com espinhos mesmo sem conseguir entender a delicadeza e a ferocidade que uma rosa pode conter em si. Só hoje eu percebi que a gente quando machuca o outro, machuca antes de tudo o que temos de melhor em nós. Por que somos feitos de bem e mal. E o mal aparece quando, por descuido, deixo a porta aberta e entram folhas de notícias velhas, folhas de outono, folhas de outras estações, que já não existem mais - e quem sabe nunca existiram. O mal surge quando eu, cansada de ter que olhar pro mundo e pra sua maldade, tento achar algo belo dentro de mim. E o que eu encontro é só uma ponte que une a mim e as princesas dos contos de fadas, mas que tem uma falha. Bem no meio da ponte há um buraco, Glorinha. E eu não acredito em fadas.

Então é aí que qualquer voz, conhecida, sussurrante, distante, me acorda, me abraça e me revela que os jacarés que pulavam pra tentar me engolir são as lagartixas que moram no teto do quarto escuro, e a ponte com falhas é só a mão que eu encolhi quando naquele dia alguém sorriu pra mim. Por que, Glorinha, eu sei que o mal a gente vê em todo canto, mas o bem só pode existir nisto: a mão dele segurando a minha e a impedindo que fique presa aos medos. E o arrepio que isso me dá é tão leve, que os dedos dele conseguem fazer brotar em cada um dos meus poros uma flor.

3 comentários:

Polyana disse...

Esses espinhos que ora machucam, ora ensinam; são tão dolorosos quanto necessários.
Mas quer consolo melhor, do que aquela mão amiga para nos ajudar a atravessar as pontes e nos defender das largatixas?
Esse é o bom, da vida. Os laços que nos amarramos nas pessoas fazem toda a diferença nessa vida, mesmo que quase nada nela seja um conto de fadas.

Essas conversas imaginárias me fascinam *-*

Rute Vieira disse...

Graças aos laços, Polyana, a gente não se descostura da vida. E fica nem que seja por um fio, mas está lá, segura por laços.
É aprendizagem mesmo.

GABRIEL, gustavo disse...

É a mão que faz brotar flores onde deviam existir espinhos e o bem no lugar do mal que eu desejaria segurar todos os dias.