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22.10.13

Sobre os olhares

Querido Orlando,

foi de tanto querer sonhar com os olhos fechados que eu comecei a me enxergar por dentro. E vi que não existe vendaval mais brando do que esse quando os olhos do outro tentam pousar nos meus. E quando procuram dentro desses meus olhos escuros de abismo qualquer sorriso que lhes dê remissão. Mas não encontram nem fresta nem raio de luz. Não encontram sequer um resquício de manhã. Por que esses meus olhos escuros de abismo têm medo de que o outro se perca neles e nunca mais se encontre. E enquanto o outro não se encontrar, nossos braços vão andar enlaçados atravessando as ruas da cidade. Os nossos passos rimarão em um caminho onde as flores - que não são de plástico - desabrocham em favor dos nossos versos. Nossos lábios esboçarão sorrisos tão límpidos, que até os passarinhos entenderão.
E eu não posso deixar isso acontecer, Orlando. Isso não pode acontecer enquanto eu, tão cheia de minhas razões, não consigo olhar pro outro e enxergar a sinceridade transbordando nas suas palavras. Não posso permitir que ele atravesse os escuros do meu abismo, que me ofereça flores. Não posso deixar que me olhe assim.

Então, eu peço: não me olhe assim, que o olhar do amor é desconcertante.

31.10.11

folha em branco

Querido Orlando,

será que, às vezes, a gente se dá tanto a outra pessoa que chegamos a desaparecer? Será que quando damos uma carta, um bilhete, um telefonema que nunca é correspondido, será que é assim que a gente vai se perdendo? Será que é assim que tudo se acaba? Ou nem mesmo começa?

Ontem eu me procurei por todos os cantos que eu costumo ir, mas não me achei! Foi aí que eu percebi que eu não tinha mais nada, que foi tudo embora, Orlando, que eu não tinha mais nem eu! Mas onde foi que eu me perdi? Em que verbo, poesia ou esquina eu deixei que eu fosse embora de mim sem nem mesmo me despedir? A janela do quarto estava aberta e o vento me trouxe uma folha em branco. A folha sorriu pra mim com seu sorriso imenso e branco. Ela disse que sim, que me entendia: ela mesma era um grande vazio. Mas eu não sei te preencher, disseram meus dedos.
(...)
Não resisti: me entreguei à folha. E afundei o meu vazio nela o mais que pude. Como se assim pudesse aprisionar o meu vazio em um instante. Como se assim pudesse aprisionar o amor. Então eu aprendi: não importa o quanto você não exista mais pra você, nem em quantos mil pedacinhos você se encontra depois da decepção. Uma folha em branco pode ser uma carta pra alguém que, mais que tudo! apesar de tudo! em uma fração de segundo me comove e me arrebata e me abraça com um abraço forte e me completa. E isso é maior que tudo, mais lindo que tudo, muito mais lindo do que se eu fosse uma pessoa inteira.

13.9.11

o caminho do vento

Querido Orlando,

no fim da tarde eu abri a janela e senti o vento varrendo a primavera pra dentro de mim. Enchi o peito e expirei mil cores. O vento veio não sei de onde, mas não neguei-lhe que inundasse minha garganta, fizesse tempestade em minha barriga e se abrandasse ali em forma de borboletas coloridas. Quem sabe o caminho do vento? Se já não arrastou portas, telhados e janelas, já não levou fotografias a bueiros, já não virou páginas de livros ou carregou consigo uma folha por cinco segundos. Cinco segundos. Nos segundos eternos em que uma folha achava que poderia voar. Foi aí que eu entendi, Orlando, que nenhum amor nasce preso entre quatro paredes. Que nenhum amor floresce sem que percorra, nem por um instante, o caminho dos ventos. Um amor só é capaz de sobreviver no coração que é acostumado ao carinhos do universo.

29.7.11

Canteiro de girassóis

Querido Orlando,

Estive aqui me perguntando: desde quando o tempo existe? Qual a distância entre o começo dele e o seu fim? E se é como dizem, que é infinito, em que pedaço ou fatia do tempo meus olhos encontraram o teu? Onde parou o ponteiro do relógio no exato instante em que os teus olhos passaram a existir para mim? E até quando ele ficará ali, parado no tempo e no espaço, enquanto nós dois contamos histórias de girassóis e guarda-chuvas?

Porque existe isso de o tempo não passar, de a vontade não passar, de o amor não passar enquanto os olhos, cúmplices, contarem histórias que não existem nos livros, que não existe nem na imaginação de qualquer outra pessoa além dos dois. Histórias de uma certa primavera, de uma certa chuva inesperada, de um encontro casual, de uma ponte em forma de guarda-chuva unindo dois olhares, de umas sementes de girassóis presenteadas, de uma plantação germinando, crescendo, florindo e, inevitavelmente, morrendo... De um amor germinando, crescendo, florindo, mas que não morre. E não morre nunca. No nunca que só chega quando a linha do tempo acaba. Quando isso acontece todo mundo diz: "Ele volta..." e o relógio diz: "Ele volta..." e não volta. Porque o relógio dá voltas, mas o tempo, não.

Aí me surge outra pergunta, Orlando: quantas sementes serão plantadas para que eu preencha o canteiro dos seus pensamentos?

5.2.11

Motivos de verão

Querido Orlando,

Não sei se a escrita antecipa a Rute ou se foi o contrário. Eu só sei que existe uma necessidade, uma maior do que a minha própria existência, que extrapola nervos e artérias, rompe tendões e atinge músculos: uma vontade do intangível, do inalcançável, que se torna simples e possível quando desenrolo os papeis de cartas, e após um suspiro, começo a escrever-te. Faço isso sem pressa, e sem ao menos resíduos de esperança de uma resposta. Apenas escrevo. Aconteça o que acontecer.

Porque existe isso de me sentar à janela e começar a desenrolar a linha do tempo. Vindo do último capítulo, do último dia de primavera, e desfazendo-me dos embaraços e dos nós. Desfazendo-me de nós, com as minhas mãos sobre o meu colo, querendo encontrar motivos para a primavera ter que acabar assim, levando consigo o mais belo dos arco-íris que surgiu após a chuva e você dividiu comigo o seu guarda-chuva amarelo.

Até onde vai a primavera? Até a rua mais próxima? Até uma folha flutuando no lago? Ou será que até os nossos olhos nos olhos do outro? Mas os motivos da fuga da primavera, eu só encontro no verão. Quando os meus olhos, nos outros que eu encontro no espelho, liquefazem meus próprios labirintos, desaguando a solidão em palavras. Pois finda o último da primavera, mas amanhecerá um belo e sorridente dia de verão. Anoiteça o que anoitecer.

Queridos, a ideia do texto é originalmente do meu amigo Lucas Azevedo. Acho que ele estava preocupado com meu apego pela primavera e sugeriu o verão. E me fez um bem! Obrigada.

11.1.11

Flores de plástico

Orlando,

Primeiro eu me surpreendi; agradeci-o; dei-me completamente às sementes; fui recompensada com as flores. Mas agora, eles estão despetalados. Os girassóis, Orlando, os girassóis vistos assim nem mais parecem girassóis.
Então é isso? Era exatamente isso que você queria me dizer quando deu-me as sementes?
Primeiro você se rende ao amor, e encanta-se de uma maneira que poderia dar a sua vida por ele.
Em seguida ele te retribui, e te gratifica presenteando-te com as mais belas flores, das mais belas cores.
Mas então, ele murcha. E vai embora. E morre.
Pois, se era pra cuidar e depois ver morrer um amor que tinha tudo pra dar certo, e sentir-se culpada por isso, por que não me deu flores de plástico? Por quê?

2.10.10

carta ao meu amigo Orlando

Querido Orlando,

Se é mesmo possível haver uma medição de tempo, eu desconfio. O relógio é só uma invenção do homem na tentativa de poder enxergar a passagem do tempo, e de alguma maneira, achar que ele pode estar nos números finitos. Mas quando eu seguro a tua mão, Orlando, e os nossos dedos se cruzam num vai e vem de caminhos perdidos, o tempo se esvai por entre as brechas e escorrega pelos braços, cotovelos... O tempo se esvai e some. Não no mesmo caminho da água. Ele entra nos poros e se aloja. E quando há muito tempo na sua pele, vai se tornando cada vez mais difícil pra ele se alojar de forma que você se sinta confortável. Então, na tentativa de salvar sua própria pele, a fim de que ela simplesmente não arrebente, ele se junta num cantinho, e vai juntando, e formando rugas, e se detendo nos cantos dos olhos, da boca, das mãos...

E eu fico aqui pensando se não há uma outra forma de termos tempo e não criarmos rugas. E se o tempo pudesse ser bebido, qual seria a forma que ele encontraria de sair, e criar uma enorme nuvem para então chover tempo novamente. A nuvem que, algum dia, desceria furiosa, castigando janelas e portas, enquanto eu tentasse salvar, no colo do meu vestido, a mais bonita de minhas histórias. E se o tempo nos regasse, se envelheceríamos de vez ou se impressionantemente teríamos ,enfim, a fórmula da juventude.

E ainda penso nisso: eu sentada naquela cadeira, folheando as idades passadas escritas no álbum de fotografia ou nas cartas a ti escritas. E penso, meu querido Orlando, com muita certeza, que qualquer tempo que exista entre as palavras e os corpos, entre o texto e a pele, ou entre os tecidos e as teias, não pode apagar da minha memória os teu olhos que um dia encontrei. E foi por eles, que um dia abri as janelas do meu quarto, e essas cartas comecei a te escrever.

10.7.10

sementes de girassól

Querido Orlando,

Como é que a gente pode perder as coisas que nunca teve? E deixar que o tempo as leve pra longe da gente até que nossos olhos não as alcance mais? Quando o tempo leva, não há ponte que una dois olhares abandonados. Não há agulha nem linha do tempo que reate dois corações afastados por motivos que não são importantes. Será que é assim que as coisas vão embora? Ou talvez nem cheguem?

Mas hoje eu abri a janela e mal consegui acreditar! Inspirei um milhão de cores e expirei uma explosão de flores, escapando afoitas do meu peito. Abri a janela e vi: o meu girassól brotou! Por que há isso de extraordinário no mundo, Orlando. Quando alguém rejeita os seus cuidados, por algum motivo muito importante pra ele ou por motivo nenhum, você pode plantar um girassól. E pode regá-lo, vê-lo crescer, pode falar com ele, amá-lo... Mas você sabe bem que seu girassól nunca vai criar pernas e ir embora de você. O seu girassól vê o amor que você tem por ele quando o banha exageradamente, e quando o olha com os olhos de uma mãe. Olhei pro meu girassól e vi que tudo é tão bonito, tudo tão… inacreditavelmente perfeito e encaixado que nem a maldade dos homens, de seis bilhões de homenzinhos pequeninhos, pode ser maior do que o conjunto das estrelas erradias, ainda mais quando metade de cada homem também é amor…

Porque eu sei, Orlando, que somos feitos de bem e mal. E eu que achava que era a culpada disso tudo, que tinha feito ou deixado de fazer algo e por isso o outro foi embora, eu que nem acreditava mais em mim... Você só quis me mostrar que eu podia ser maior, não do que os outros, mas que eu podia ser maior que os meus medos ou até mesmo do lado mau que há em mim. Você me mostrou bem isso quando chegou sorrindo e me deu aquelas sementes de girassól.

4.7.10

Desabafo


Senhor,

Eu já estava no ônibus quando hesitei, quando desci no primeiro ponto que a agulha fez entre nós. Voltei correndo pra casa, subi as escadas em espiral, passei a chave na porta e juro que ouvi a nossa música tocando no rádio. Mais uma vez voltei pra casa, senhor. E encontrei-a arrasada.

A mesa ainda posta, as cadeiras separadas pelas migalhas de pão. As violetas murchas na janela, denunciando a falta de cuidados, ou até mesmo os exagerados, que o senhor teve com elas. Não lembra como ensinei? É preciso molhar os dedos, e deixar que a água vá pingando e umedecendo toda a terra. Minhas mãos na cintura. A camisa sobre a cama, à espera de um abraço. Alguma casa sem botão. Botão sem a casa. A casa. A casa. A casa? A casa vazia. Meu desespero através do espelho. A cortina descosturada no ponto que a agulha (essa que ensina a costurar as feridas, senhor) não deu.

A colcha de retalhos bordada de flores murchas. A meia sem o par. Um jarro na parede. O grito alto. Um porta-retrato no chão dividido em dois. O ponteiro no dez. Nós dois tentando correr atrás do tempo que a tesoura cortou em quatro pedaços. Meu desabafo em cada canto da parede. As mãos sobre o colo, em desespero. A porta fechando-se rancorosa.
Pode mesmo acabar assim um casamento, senhor?

15.6.10

Carta VI

Senhor,

Já faz um tempo que eu queria te escrever uma cor. Depois de passar o passado, acho que eu mesma esqueci dos tons, das notas, das pausas. Esqueci de retomar a música. Ficou a fermata na pausa no ar. O silêncio depois da nota aguda.

Da primeira vez quem sugeriu, eu sei, eu sei, fui eu. Entenda bem, senhor: meus dedos não sabem tocar. E foi tentadora a sua ajuda. Mas você deixou a música de lado. Deixou de tocá-la para me. Era pra solfejar, senhor! Solfejar. Acompanhando o compasso, compasso binário. Um, dois. Um, dois. Nós dois na mesma sala. Eu na minha voz, você na sua. Mas a música se uniu através dos lábios, e a canção nesse dia foi cantada para dentro.

Da segunda vez quem sugeriu também fui eu, eu sei. Mas eu não entendia que na música os sentidos se invertem. Que os braços beijam. Os olhos sentem. Os lábios veem. E de repente você anuncia pausa de oito tempos! Pausa de oito tempos! Não era pra ser assim, senhor. Isso faz parte do improviso, senhor?

Depois veio de novo desamarrando as cinco linhas do pentagrama e as amarrando em minhas mãos. Insistindo agora que a música ficasse. Também é contraditória a música, senhor. Eu queria alcançar sol, mas você só aceitou ir até lá. Então as claves, as colcheias, as mínimas, e as semibreves foram escorregando, saindo da nossa música. Já não há mais tom, nota, nem pausa. Acabou a música no instante em apareceu a barra dupla. Eu e você separados. Foi pra lá e levou parte de mi. Ficou apenas dó. A nota insistente que ainda soa. Dó.

25.5.10

Carta V (sobre o silêncio)

Querido Orlando, 

Hoje eu andei as ruas todas em silêncio, tentando fazer silêncio pelo lado de fora. Quando não quero que os meus pensamentos acordem as pessoas grandes do mundo, prefiro escrever uma carta sem muito ruído.

Ah, Orlando, vim pelas ruas lhe escrevendo cartas. Dois rapazes riram das roupas de um homem. Quis escrever cartas a esse homem também, mas dois passos eram ainda mais longe que Paris! Queria dizer a ele que não se sentisse desconfortável no mundo, tudo bem a sua blusa ser assim. O homem baixou a cabeça como se o mundo fosse lá embaixo, junto das plantinhas que insistentemente nascem nas calçadas feitas de cimento. Quis dizer que a blusa colorida e distraída brincava de voar no varal, acenando alegre às formiguinhas que atravessavam uma ponte improvisada entre uma calçada e outra. Quis dizer isso a ele, quis muito, mas não disse, é claro. Há tantas coisas que não dizemos a um desconhecido... Talvez, ainda mais, muito mais, aos conhecidos que estão separados de nós além da distância entre eu, o homem e Paris. Por que muitas vezes a distância que existe entre nós é só uma corda, na brincadeira de cabo-de-guerra. E ninguém se rende, Orlando. Ninguém. E se ninguém se rende, as palavras fogem. 

Por isso lhe escrevo, para que não se esqueça de nosso mundo quentinho, das palavrinhas miúdas que carregamos nos bolsos, e dos silêncios - mais insistentes que as plantinhas que nascem no asfalto - que transbordam nossa boca de risadas. Por hoje, fiquei com o começo desta carta e o silêncio que ainda permancesse entre os conhecidos. Por hoje, querido Orlando, por hoje, foi só.

16.5.10

O livro de capa dourada

Querido Orlando,

Eu sei, nessa vida a gente está sujeito a tudo. Se estivermos no ar, podemos cair. Se no mar, o risco é de afundar. Mas como é que é possível o mundo desabar mesmo à nossa frente, assim, sem aviso? As coisas acontecem sem aviso prévio, sem dicas, sem motivos. O chão foge, e a gente vai caindo na tal desilusão. E nessa dimensão nossos olhos estão bem abertos, vendo realidade, sentido o real cheiro das coisas, tateando tudo como é. Pisando em pedras e sabendo que aquilo são pedras, e não flores.

Um gesto de carinho numa rosa pode nos machucar. É bonita a rosa? É. Mas a beleza dela não impede que seus espinhos nos machuquem. É linda a vida? Ora! Mas a corrida é dura, Orlando. Não dá pra se viver assim, vadio como o vento. Não dá pra se envolver com ele, dançar com ele, adquirir forma de vento e acompanhá-lo na viagem aos quatro cantos do mundo. A corrida segue. E então, cadê a música da vitória? Cadê a faixa de chegada? Cadê os aplausos? Cadê o troféu? O buquê de flores?

Em meio as turbulências é que te procuro. Te falo do céu, do mar, do passarinho que fugiu da gaiola, da menina correndo lá fora. Mas tu bem sabes que o que eu procuro em ti é paz. A paz que tu me dás quando chegas na porta da minha casa, no finzinho da noite, acompanhado das estrelas, da lua e da multidão das tuas histórias. Abres o livro de capa dourada, e eu me encosto no teu ombro úmido do orvalho da noite, fecho os olhos, e a história começa. E nem Branca de Neve, nem a Bela Adormecida foram mais felizes do que eu sou naquele momento.

5.5.10

guarda-chuva amarelo

Querido Orlando,

Hoje senti os teus olhos em mim. Me observaram durante um longo tempo. E por um tempo tive tanto medo de abrir os olhos e sentir os teus pousando sobre os meus, encontrando-os, penetrando-os, navegando-os, que nem me dei conta de que já estava conversando contigo, andando contigo, dividindo contigo o meu guarda-chuva amarelo. Tive medo de perder os meus dentro dos teus. Me perder em ti pra me encontrar enfim. Então virei e vi a cortina da janela balançando. E eu só queria dizer que a porta está aberta. Mas se quiser mesmo pular a janela, fica à vontade.

Da janela dá pra gente ver o sol nascendo, se pondo, as crianças correndo lá fora, brincando de gira-gira. Lá fora, a menina andando em círculos nem percebe o quanto cresceu. Volta sempre pra o mesmo lugar, mas já não é a mesma. Nunca sai do prumo, sempre andando em círculos, seguindo o ponteiro do relógio, correndo com e não contra o tempo.

Naquele momento percebi que o tempo não pode fazer muita coisa com a gente. Se todas as coisas se acabam porque o tempo é mau e não deixa que elas continuem, há uma coisa que o tempo não detém, Orlando. Palavras são à prova de tempo. Então, guardei aquela carta por dentro dos meus olhos para quando o tempo mudar, eu não esquecer você. Pra quando o tempo mudar, e o céu ameaçar explodir de tão cinza que está, você, como sempre, não me responder palavras, não me escrever palavras, mas quando o sol for sumindo, você sorrir e se encolher comigo embaixo do meu guarda-chuva amarelo.

25.4.10

Querida Glorinha

Quanto tempo a gente leva pra deixar que os nossos olhos descansem da espera? E deixar que eles se fechem suaves, devagar, enquanto vem um anjo e vai prendendo nossos cílios, um a outro, na tentativa de que a gente não acorde nunca mais? Quanto tempo a gente leva pra se acostumar com o telefone que nunca toca, com a voz do outro lado que nunca mais vai dizer: tô voltando? Nunca mais. Foi nesses dias, Glorinha, que eu percebi que a falta que a gente sente do outro às vezes é tanta que a gente esquece da gente, que a gente se perde dentro de si mesmo, que a saudade nem é mais da gente porque nem existimos mais. Só o outro. E a saudade, com seus ares de chantagem, está em toda parte. No livro, na árvore, no caixa de supermercado, na fila do banco, no portão de saída... E quando chega a noite, ela escolhe o pior lugar, deita bem do lado da gente na cama e fica acariciando a nossa face, enxugando os nossos olhinhos úmidos, repetindo a última frase ouvida, e nos lembrando que "não volta nunca mais."

13.3.10

Carta

A história que essa carta conta é triste e banal. 

"Sei que certas notícias nos deixam vagamente preocupados. Mas a ausência das tuas obrigaram-me a comprar selos pra te enviar esta Carta. Há muito venho pensando em como o tempo quase não passa quando esperamos por algo. Esperava por qualquer coisa: um telegrama, uma carta, um bilhete, um cartão, uma lembrança. Todos os dias cumpria a sina de esperar o carteiro, já cansado, no fim da tarde, abrir a bolsa e entregar-me o envelope que faria com que o céu descesse até mim, e me fizesse deitar em qualquer nuvem, e me acolhesse pra que lesse as tuas palavras, ainda que poucas, pelo menos 3 milhões de vezes. Mas tudo o que eu tenho visto é o carteiro fazendo a curva no fim da rua, já cansado, no fim da tarde. E pela janela mantenho os olhos fixos no céu pra que mandem um sinal. Uma nuvem de chuva ou de fumaça. Alguma coisa que traga graça. Mas tudo o que eu vejo é o sol se pondo no mar. Do mar espero uma garrafa, com uma carta contando que estás chegando, que sentes saudades, que anseias me ver. Aí a noite chega. Confesso que falo pra mim mesma todos os dias as frases que gostaria de ouvir de ti. Frases que me fariam bem, como quando o sol ilumina o mar e nos traz a luz da manhã. E ainda que não me dissesses ao menos uma vírgula do que eu penso, anseio por que me digas a verdade. Só a verdade. Então levanto, procuro acender as luzes, por que meus olhos vão apagar. Não em sonhos, não em pensamentos. Se apagarão de medo que não lembres mais de mim. Os olhos de água vão molhando, lavando e levando os dias que espero por tuas notícias. Até que adormeço e tento manter-me nessa condição até que voltes. Por que a noite, a noite é pouca para o muito que sinto."