7.12.16

O amor é isso tudo

O amor é isso o que acontece entre o seu olhar e o meu sorriso. O amor acontece nas nossas conversas randômicas, nas respostas inesperadas. O amor é isso o que acontece entre o meu olhar e o seu sorriso. Estar perto sem estar é amor. Trocar aquela camisa por outra, acredite, também é amor. Dizer que tudo bem, ligar pra dizer que vem, as vezes um réquiem. O amor é ser sincero e ir.

O amor é ir.

Mas só ir. Voltar não é amor. Porque o amor é a não-fuga. O amor vê o furação se aproximando e fica. Senta, espera, desespera. O amor ou vai e não volta ou não vai. Ou não vai e deixa de ser ou não vai e é. E fica sendo.

23.11.15

Sobre inundações

Teus olhos são um mar, amor.
Eu, barquinho de papel.

"Não hoje, não mais. Nem nunca, jamais."

Querido Orlando,

Eu ainda não estou pronta pra mudar a minha vida pra sempre. E não sei se devo pedir desculpas a meus pais, a Deus, ao cacto que deixei morrer à míngua ou a menina que, gentilmente, pedia a todos que amanhecessem. 
Mas eu me pergunto: Vale a pena amanhecer-se cinza? É possível começar o dia pelo lado avesso, Orlando? Se o dia amanhece nublado, ele emenda com a noite e a gente nem nota. Vai passando dia e noite e a gente não entende como o tempo anda se o ponteiro do relógio volta sempre pro mesmo lugar. Se o tempo fica dando volta, Orlando, porque eu também não posso voltar? Em que hora o ponteiro do relógio rebentou e eu fiquei perdida, com as mãos no bolso, sempre um passo atrás de onde eu queria chegar?
Talvez, se eu consertar as horas, conserte também o tempo. E aí pode ser que eu consiga alinhavar com a linha do tempo os muitos minutos que eu perdi tentando encontrar a hora certa do abraço, do sorriso, das mãos dadas, do sim e do não que eu nunca dei.

3.11.14

Sobre tempestades

Quando as ondas são bravias, mas navegar é preciso, eu me ancoro em uma certeza: há um porto nesse mar.

22.10.13

Sobre os olhares

Querido Orlando,

foi de tanto querer sonhar com os olhos fechados que eu comecei a me enxergar por dentro. E vi que não existe vendaval mais brando do que esse quando os olhos do outro tentam pousar nos meus. E quando procuram dentro desses meus olhos escuros de abismo qualquer sorriso que lhes dê remissão. Mas não encontram nem fresta nem raio de luz. Não encontram sequer um resquício de manhã. Por que esses meus olhos escuros de abismo têm medo de que o outro se perca neles e nunca mais se encontre. E enquanto o outro não se encontrar, nossos braços vão andar enlaçados atravessando as ruas da cidade. Os nossos passos rimarão em um caminho onde as flores - que não são de plástico - desabrocham em favor dos nossos versos. Nossos lábios esboçarão sorrisos tão límpidos, que até os passarinhos entenderão.
E eu não posso deixar isso acontecer, Orlando. Isso não pode acontecer enquanto eu, tão cheia de minhas razões, não consigo olhar pro outro e enxergar a sinceridade transbordando nas suas palavras. Não posso permitir que ele atravesse os escuros do meu abismo, que me ofereça flores. Não posso deixar que me olhe assim.

Então, eu peço: não me olhe assim, que o olhar do amor é desconcertante.

11.6.13

Inclusive eu

Tudo muda.
Muda o tempo.
Muda o mundo.
O tempo muda o mundo todo.
O mundo muda o tempo todo.
Todo mundo muda o tempo todo.

Eu, por exemplo

8.4.13

Nome-verbal

Glorinha tinha uma felicidade no nome: a de ser verbo.
Pois quando estava cheia de pernas por receber um elogio, saia dizendo pra todo mundo que "vida de Glorinha é assim mesmo: posso me Gloriar disso tudo sem deixar de ser eu".

19.10.12

Conselho sobre jardinagem

Para plantar girassóis não é preciso apenas as sementes. O plantio deve ser feito, acima de tudo, com tempo de sobra. Tem que se estar preparado quando os girassóis começam a contar histórias.

23.9.12

Intervalo

Sem que nada tenha começado, foi assim que tudo terminou. Os nossos caminhos apenas se cruzaram numa sucinta fração de segundos sem ao menos eu ter tempo de saber (pelo convívio) se você prefere andar na chuva ou se esperaria ela passar na cobertura de uma banca de revistas.
As nossas escolhas não foram minhas nem suas. Porque a gente sempre soube onde cada um queria chegar. E, bem, os nossos sonhos não eram os mesmos.
A gente se encontrou naquele intervalo que o tempo dá de vez em quando, quando a gente nem sabe mesmo quem é, o que quer, mas só sabe que tem que acertar. Não acertamos. Mas há algo de lindo nisso. Vê?, é como se o acaso tivesse proposto que mudássemos os nossos planos para que eles passassem a rimar. Não funcionou.
Mas olha, tudo pode mudar, desde que a gente não mude.
Se bem que não é isso o que vai acontecer.

6.6.12

Sobre a distância

Tudo é muito longe se a distância é maior do que os braços e não cabe em um abraço.

14.3.12

Sobre amanhecer-se

À medida que abriu os olhos, abriu também a manhã. E ao levantar os braços, estendeu por cima de si o céu, fazendo cair nos seus pés as estrelas erradias da última noite. Sorriu ao ver a revoada dos pássaros através da janela; ela mesma também estava voltando para o lugar donde partira. Durante a última noite, entendeu que qualquer ruído pode ser um trovão. Apoderou-se do silêncio, e não deixou nem que o pensamento falasse alto. Sentiu um aperto pela solidão das coisas e quis - embora em vão - segurar a lágrima que saltava dos olhos. Rompeu-se. Quando a tristeza é grande, como o mar, a lágrima é salgada. Inundou-se. Depois, deixou escoar de dentro de si os vestígios restantes da solidão. Desapegou-se. Seguiu o conselho: amanheceu-se, enfim.

14.2.12

Conselho

Quando só existe noite e eu me pergunto insistentemente se esse tempo não passa nunca, você chega de mansinho e me aconselha: Você tem que amanhecer, amor. Quando o sol nasce lá fora é porque já nasceu dentro de nós.

31.10.11

folha em branco

Querido Orlando,

será que, às vezes, a gente se dá tanto a outra pessoa que chegamos a desaparecer? Será que quando damos uma carta, um bilhete, um telefonema que nunca é correspondido, será que é assim que a gente vai se perdendo? Será que é assim que tudo se acaba? Ou nem mesmo começa?

Ontem eu me procurei por todos os cantos que eu costumo ir, mas não me achei! Foi aí que eu percebi que eu não tinha mais nada, que foi tudo embora, Orlando, que eu não tinha mais nem eu! Mas onde foi que eu me perdi? Em que verbo, poesia ou esquina eu deixei que eu fosse embora de mim sem nem mesmo me despedir? A janela do quarto estava aberta e o vento me trouxe uma folha em branco. A folha sorriu pra mim com seu sorriso imenso e branco. Ela disse que sim, que me entendia: ela mesma era um grande vazio. Mas eu não sei te preencher, disseram meus dedos.
(...)
Não resisti: me entreguei à folha. E afundei o meu vazio nela o mais que pude. Como se assim pudesse aprisionar o meu vazio em um instante. Como se assim pudesse aprisionar o amor. Então eu aprendi: não importa o quanto você não exista mais pra você, nem em quantos mil pedacinhos você se encontra depois da decepção. Uma folha em branco pode ser uma carta pra alguém que, mais que tudo! apesar de tudo! em uma fração de segundo me comove e me arrebata e me abraça com um abraço forte e me completa. E isso é maior que tudo, mais lindo que tudo, muito mais lindo do que se eu fosse uma pessoa inteira.

6.10.11

do abraço

Melhor do que estar na calmaria, embora só, é ter pra quem correr na hora da tempestade.

29.9.11

Feliz aniversário!*

Ela se levanta pela manhã. Abre os olhos, mas sente uma enorme preguiça de se levantar. Seu corpo etá totalmente relaxado e seu despertador toca sem parar. Ela toma fôlego para se levantar e olha para o seu celular: 29 de setembro.

O calor da manhã reluzente começa a invadir o seu corpo. Levanta-se e abre a janela. A luz do sol a deixa cega por alguns segundos. O cheiro que vem do campo em frente ao seu quarto, emana flores e frutas. Ela enfim, toma coragem para tomar um banho, frio.
Na mesa, várias pessoas queridas se sentam ao seu redor. Ela se sente amada, como em nenhum outro dia. Sua mãe lhe mostra a travessa de prata que sua avó lhe dera quando ainda era moça. O cheiro invadia toda a casa. A torta dourada, lhe lembrava aquelas de desenho animado que tanto desejara quendo ainda era criança. Sim, porque hoje, não era mais, ou talvez até fosse.


Ao cortar a torta, sente o incrível aroma da fruta que tanto gosta. A maciez da textura lhe agrada. Ao degusta-la, lembrou-se de toda a sua infância durante o tempo que a maciez da torta se desmanchava em sua boca. Era a torta de pêra que tanto gostava.
Durante os poucos minutos em que deliciava tal iguaria caseira, conversava com seus pais, lembrando do tempo em que brincava lá fora, próxima ao pé de pera, que tanto admirava. Hoje, o sabor daquela torta estava diferente. Podia apreciar o aroma, o sabor, a textura com mais propriedade. Não era mais aquela criança que se lambuzava toda e recebia broncas da mãe por querer comer a torta antes do almoço. Ela então entendeu: havia se tornado uma mulher.



*O texto é um presente da abiga Jéssica Lira. A torta de pera é contexto de uma história muito importante. Obrigada, amiga.

23.9.11

Como a primavera pode começar

Antes da segunda parte do trabalho, uma pausa para o chá. À minha frente está um homem de olhos de pêssego. Uns olhos assim tão doces e suaves que até se tem vontade de comê-los. Todas as tardes pede o chá de maçã, cravo e canela, e se ajeita o mais confortável possível, como se pudesse passar todo o resto da tarde ali. Eu olho pra o relógio impaciente, contando cada segundo pra o retorno ao trabalho.
- O meu é de camomila, por favor!

Durante o chá ele levanta os olhos (que vontade de comê-los!) e o elogia. Enquanto isso, o vapor que sai do chá mistura-se com o som da suas palavras que agora tem cheiro e cor. O homem à minha frente vai tomando o chá aos poucos, assoprando-o. Eu dou o primeiro gole e ai! Queimei a língua!

Depois do chá, chama o garçom e paga a conta. Agora seus dedos estão aninhados nos meus. Se fôssemos semente e terra, as suas raízes estariam em mim, e eu as alimentaria. Mas como dois seres assim tão diferentes podem fazer brotar uma flor?

13.9.11

o caminho do vento

Querido Orlando,

no fim da tarde eu abri a janela e senti o vento varrendo a primavera pra dentro de mim. Enchi o peito e expirei mil cores. O vento veio não sei de onde, mas não neguei-lhe que inundasse minha garganta, fizesse tempestade em minha barriga e se abrandasse ali em forma de borboletas coloridas. Quem sabe o caminho do vento? Se já não arrastou portas, telhados e janelas, já não levou fotografias a bueiros, já não virou páginas de livros ou carregou consigo uma folha por cinco segundos. Cinco segundos. Nos segundos eternos em que uma folha achava que poderia voar. Foi aí que eu entendi, Orlando, que nenhum amor nasce preso entre quatro paredes. Que nenhum amor floresce sem que percorra, nem por um instante, o caminho dos ventos. Um amor só é capaz de sobreviver no coração que é acostumado ao carinhos do universo.

4.9.11

os passarinhos

Quando era de manhã e Glorinha se acordava para dar comida aos passarinhos que a esperavam no quintal, ela ia correndo e gritando: hora de comer, passarinhos! Está na hora de comer!
Então o seu avô, Seu Cândido, a chamava, afagava a sua cabeça e pedia com doçura nos olhos e na fala: Não dê tempo aos passarinhos.

26.8.11

o tempo, parte II

O trabalho com os relógios havia ajudado ao Seu Cândido a serenar quando o que se quer mesmo fazer é trovejar. Pois havia aprendido que tempo não é relógio, dinheiro, remédio... Ele sabia que, muitas vezes, nem o tempo cura. Para ele, tempo era aprendizagem, sabedoria. Um livro à disposição de analfabetos e doutores, míopes e estigmáticos, daltônicos, juízes e réus. Um livro de respostas para muitas perguntas. Mas ele sabia que, muitas vezes, nem o tempo é capaz de dizer.

24.8.11

o tempo, parte I

Sempre que interrogado sobre sua ocupação, Seu Cândido respondia que trabalhava com o tempo. A verdade era que ele trabalhava com as horas e passava a maior parte dela na sua oficina consertando relógios. Ele era Cândido no nome e na alma. E fazia jus ao nome que recebera no nascimento assim como os pássaros o fazem. (...)

9.8.11

7.8.11

dois

Eu lembro bem sob quais circunstâncias você foi criado. E sei mencionar sob quais motivos você existe até hoje, que aliás, não são os mesmos desde o início. Seu nome tem história e significado, e sua bagunça é proposital. Um varal cheio de cores e formas, onde estendo as roupas que lavo na poesia, cada uma com sua lavagem especial. Circunstâncias, motivos, significados e histórias não cabem a vocês, leitores, que compreendam. Porque a mim já basta que vocês leiam e, de alguma forma, se identifiquem com as roupas que eu, pacientemente, estendo no varal. Obrigada por esses dois anos.

E ainda há tanta roupa a se lavar...

29.7.11

Canteiro de girassóis

Querido Orlando,

Estive aqui me perguntando: desde quando o tempo existe? Qual a distância entre o começo dele e o seu fim? E se é como dizem, que é infinito, em que pedaço ou fatia do tempo meus olhos encontraram o teu? Onde parou o ponteiro do relógio no exato instante em que os teus olhos passaram a existir para mim? E até quando ele ficará ali, parado no tempo e no espaço, enquanto nós dois contamos histórias de girassóis e guarda-chuvas?

Porque existe isso de o tempo não passar, de a vontade não passar, de o amor não passar enquanto os olhos, cúmplices, contarem histórias que não existem nos livros, que não existe nem na imaginação de qualquer outra pessoa além dos dois. Histórias de uma certa primavera, de uma certa chuva inesperada, de um encontro casual, de uma ponte em forma de guarda-chuva unindo dois olhares, de umas sementes de girassóis presenteadas, de uma plantação germinando, crescendo, florindo e, inevitavelmente, morrendo... De um amor germinando, crescendo, florindo, mas que não morre. E não morre nunca. No nunca que só chega quando a linha do tempo acaba. Quando isso acontece todo mundo diz: "Ele volta..." e o relógio diz: "Ele volta..." e não volta. Porque o relógio dá voltas, mas o tempo, não.

Aí me surge outra pergunta, Orlando: quantas sementes serão plantadas para que eu preencha o canteiro dos seus pensamentos?

22.7.11

Feliz aniversário, decepção

Há vidas que se vivem em um dia. Mas há dias que podem durar uma vida inteira. E foi assim com nós dois. 
Enquanto o universo tinha as coisas individuais, - um céu, um sol, um mar - nós éramos dois. E éramos como quem só podia ser hoje e agora: como se o amanhã fosse algo muito distante e incerto. 

Era agosto e, enquanto eu estava refugiada com os meus medos, seus olhos de infinito me encontraram. Os medos afloraram e apelaram em gritos, rancorosos da última vez que eu os deixei transparecer. Mas aqueles eram olhos que não tinham segredos ou códigos, tão translúcidos como a água deste copo e não me davam alternativas... Porque existem olhos que são úmidos de oceano, que não ferem e nem rasgam, que são capazes de atravessar o céu sem perfurar as estrelas.

Eu deveria abrir mão da primavera do mês seguinte, de plantar as sementes no mês seguinte. E eu não sabia mais sobre o que falar, porque eu vivia as outras estações somente pela primavera. Era sobre isso que eu sabia falar: sobre as sementes germinando, sobre o regador, sobre como evitar as formigas e, principalmente, sobre como recolher as novas sementes. É sobre os girassóis que eu falo para o mundo, e ele gosta de me ouvir. 

Eu resistia escutando os meus medos gritarem na minha cara que, apesar de você me assegurar que não era igual aos outros e que duraria muito mais que a primavera, pois era amigo das flores de plásticos (as imortais flores de plástico!), você era igual. Mas eu não quis ouvir, e eu não pude evitar quando você me perguntou: vai fugir até quando?

Eu abri mão da primavera do mês seguinte, de plantar as sementes no mês seguinte. E agora, quando eu encostar a minha mão na sua e nascerem árvores de plástico como é que vai ser? Será que o mundo vai tampar os ouvidos? Será?  

8.7.11

"ter fé e ver coragem no amor"*

Eu sou um pouco desacreditada de tudo. Duvido muito, indago, questiono, busco justificativa, motivo nobre. Sou um pouco desacreditada de tudo: menos do amor.
Dele não duvido e nem desisto. Porque eu acho que o amor, diferente de tantos outros sentimentos, é coisa que a gente tem por direito. Como o ar, como ao nosso próprio corpo.

* trecho da música "último romance" - Los Hermanos

16.6.11

Silenciando

Às vezes ponho-me em silêncio.
É que nessas vezes
eu sempre escuto
o silêncio alheio
falar.

10.6.11

A narradora

As ideias, como pássaros, pousaram lentamente sobre sua cabeça. Rodearam-na durante dias, até que conseguiram fazer adormecer os seus medos. Porque a menina contadora de histórias, sentada no último degrau da escada, não sabia em que ponto da história havia se perdido. Não sabia se havia sido no nó da linha do tempo, ou se a própria linha havia acabado. Quando chegaram ao último ponto, tudo o que restava era uma menina, de olhos e cabelos castanhos profundos, sentada no último degrau da escada em espiral, exatamente no último degrau onde havia escrito o último parágrafo da mais bela de suas histórias. E agora as histórias estavam apenas nos seus livros, nos guardanapos, até nas paredes do quarto, pois, se teria que viver trancada, que fosse entre quatro páginas.

As palavras que foram sussurradas agitavam as flores azuis que ela segurava no retrato, e ao seu lado só existia um monte de nada. Não era sequer o nada, já que o nada tem contornos bem definidos, os contornos daquilo que poderia existir, mas não. A menina das mãos desamparadas, sem poder alcançar parágrafo nem pontuação, sabia que deveria haver uma história ao seu lado, uma história que não enxergava, uma história que não participava e, tampouco, conseguia entrar. Ou não sabia. O outro narrador também não. Mas ela não sairia de suas páginas enquanto o seu coração estivesse vazio: um coração cheio de saudade está vazio. Pois, no dia em que todos forem embora, quem ficará para chorar? Até esse dia, ficarão assim, ela tão perdida quanto ele, sem saber aonde essa história vai dar.

25.5.11

Anúncio: Precisa-se

Precisa-se de braços que saibam - e estejam dispostos - a envolver-se nos braços de outro.
Interessados, mantenham-nos abertos, principalmente se estiver fazendo frio.

25.4.11

Nos dias de Chuva

Atravessou a rua em direção a Padaria do Seu Teodoro, num dia de inverno, debaixo do seu guarda-chuva amarelo, e ia atenta ao mundo e as pessoas. Tentava decifrar todos os rostos, todas as feições. Estaria esse feliz? Por que motivo este outro está com a testa franzida? Deve ser por que tomou café sem leite. Ou talvez a sua carona demorou, demorou, demorou, e ele teve que andar debaixo desse guarda-chuva, sozinho. Mas, eu acho que  deve ter sido mesmo o café sem leite. Café sem leite definitivamente entristece as pessoas.
Mais alguns passos adiante, - não muitos, porque a padaria ficava logo na esquina da sua casa, mas esse era o único lugar mais longe que poderia ir sozinha, por isso, aproveitava cada segundo - outras tentativas de decifração de rostos, e Glorinha pensa numa outra alternativa.

- Um dia de inverno é um dia de solidão. - pensou Glorinha - Dia em que as pessoas se encolhem debaixo de agasalhos, e se dão um abraço apertado, com os lábios tremendo... Mas não tem ninguém ali nem pra abraçar nem pra beijar. Um dia de inverno é um dia de solidão - repetiu Glorinha.

E foi, olhando agora pra cada rosto e encontrando neles a falta de alguém, a falta do bom dia que só é quentinho quando se está debaixo do cobertor, das meias nos pés que o mantém aquecido durante a noite, do café levado até a cama junto com uma rosa. Um café com leite que essas pessoas não tomaram.

2.4.11

Quando penso, parte I

Às vezes eu penso assim: que cada um é um separado, sem ligação com o que existe do lado de fora, sem nenhum contato externo, sem influências. Mas na maioria do tempo o meu pensamento é isso: um não consegue sem o outro: tudo é parte de um todo.

14.3.11

Profissão

Poetas, na verdade, são apenas jornalistas que nunca conseguiram cobrir um grande caso. Tudo o que eles conseguem noticiar é sobre a menina que abraça o seu amigo, ou sobre os girassóis que acabaram de florir.

12.3.11

Vou te contar, Glorinha,

a vida é tão engraçada! Há dias, semanas, meses tão cheios de acontecimentos! E depois chegam épocas de calmaria, de esquecimento... Períodos em que as criaturas e as coisas parecem não ter o mesmo sentido. E eu não sei se nesses tempos, quando o vazio é muito grande, se eu sinto saudade das coisas que já foram, ou se o que me falta é o que ainda virá.

4.3.11

Fábula I

 Então a tartaruga disse: Amigo, não tente tirar o peso das minhas costas enquanto você não o puder carregar.

A gente tem mania de achar que a cruz dos outros é menos pesada.

25.2.11

Enquanto o sono não vem

Eu queria viajar de trem, lendo um livro, num vagão meio vago, vendo você do outro lado olhando discretamente, enquanto eu sorria.

5.2.11

Motivos de verão

Querido Orlando,

Não sei se a escrita antecipa a Rute ou se foi o contrário. Eu só sei que existe uma necessidade, uma maior do que a minha própria existência, que extrapola nervos e artérias, rompe tendões e atinge músculos: uma vontade do intangível, do inalcançável, que se torna simples e possível quando desenrolo os papeis de cartas, e após um suspiro, começo a escrever-te. Faço isso sem pressa, e sem ao menos resíduos de esperança de uma resposta. Apenas escrevo. Aconteça o que acontecer.

Porque existe isso de me sentar à janela e começar a desenrolar a linha do tempo. Vindo do último capítulo, do último dia de primavera, e desfazendo-me dos embaraços e dos nós. Desfazendo-me de nós, com as minhas mãos sobre o meu colo, querendo encontrar motivos para a primavera ter que acabar assim, levando consigo o mais belo dos arco-íris que surgiu após a chuva e você dividiu comigo o seu guarda-chuva amarelo.

Até onde vai a primavera? Até a rua mais próxima? Até uma folha flutuando no lago? Ou será que até os nossos olhos nos olhos do outro? Mas os motivos da fuga da primavera, eu só encontro no verão. Quando os meus olhos, nos outros que eu encontro no espelho, liquefazem meus próprios labirintos, desaguando a solidão em palavras. Pois finda o último da primavera, mas amanhecerá um belo e sorridente dia de verão. Anoiteça o que anoitecer.

Queridos, a ideia do texto é originalmente do meu amigo Lucas Azevedo. Acho que ele estava preocupado com meu apego pela primavera e sugeriu o verão. E me fez um bem! Obrigada.

25.1.11

Conselhos de fadas

A Glorinha me apareceu muito triste um dia desses. Chegou com os olhos embotados de lágrimas, a coitada. Soluçava e falava ao mesmo tempo, e eu não entendi nada. Ofereci sorvete e o ombro: ela aceitou. E me falou sobre alguns machucados do seu coração que doíam bastante. Mas eu disse a ela que não, não valia a pena chorar por esses bobos! É isso o que eles são, Glorinha: uns bobos! São apenas garotos com corações cheios de maldade, que gostam de ver chorar garotas assim como você. Garotas boas, que merecem uma pessoa tão especial que talvez nem exista nessa Terra.

18.1.11

Fagulha

Ah, Glorinha, mas você sabe: muita gente se acomoda quando alguém diz que se essa é a lógica das coisas, é impossível mudá-la. Mas "impossível" é um palavrão que pessoas pequenas usam pra te insultar quando você quer muito tocar uma estrela. Ou ter um amor. E, olha, por menor que seja a fagulha de esperança, ainda há. E se há...
Mas eu não acredito nessas pessoas. E os medos que a gente pensa que tem, são apenas monstros imaginários que tentam espantar os bons sonhos. Os meus medos, antes assoladores, agora assumem o leme e além! Além!  Por isso que, pra mim, não tem isso de impossível ou complicado demais. E eu ainda prefiro os relacionamentos sem intenções, sem julgamentos e sem desconforto. Porque eu acho que um grande amor só pode nascer, e crescer, e nunca morrer, se surgir de um bom amigo.

11.1.11

Flores de plástico

Orlando,

Primeiro eu me surpreendi; agradeci-o; dei-me completamente às sementes; fui recompensada com as flores. Mas agora, eles estão despetalados. Os girassóis, Orlando, os girassóis vistos assim nem mais parecem girassóis.
Então é isso? Era exatamente isso que você queria me dizer quando deu-me as sementes?
Primeiro você se rende ao amor, e encanta-se de uma maneira que poderia dar a sua vida por ele.
Em seguida ele te retribui, e te gratifica presenteando-te com as mais belas flores, das mais belas cores.
Mas então, ele murcha. E vai embora. E morre.
Pois, se era pra cuidar e depois ver morrer um amor que tinha tudo pra dar certo, e sentir-se culpada por isso, por que não me deu flores de plástico? Por quê?

2.1.11

Não é, Glorinha?!



Mas, olhando assim para a divisa céu-mar, Glorinha, quem dirá que a terra não é quadrada?
Mesmo assim ela gira, e gira; por isso que há os dias de sorte e de azar.

18.12.10

manual de utilidadades - Os Guarda-chuvas



Guarda-chuvas também podem ser usados como ponte a fim de estreitar os abismos que há entre um ombro e outro.

11.12.10

Primaveril

(...) tudo isso doeu muito, Glorinha.
Mas agora, olhando pela janela, vejo mirados para o céu os girassóis que plantei no início da primavera. Desde que minhas mãos ficaram sem as outras com as quais se ocupar, resolvi dar-me às sementes, que me aceitam mesmo sabendo que estou com elas para não ser só. Há isso de gratificante em dar-se aos girassóis: eles primeiro crescem no nosso coração para só depois brotarem na terra. Assim como quando a gente começa a ter amor por alguém; o amor pega e cresce porque, de certa forma, a gente quer que isso aconteça, e vai querendo e ajudando.
Por que eu me ocupei da semente, tenho colhido assim, em frutos intangíveis, a paz do canto de um passarinho. E que culpa tenho agora das flores que nascem sozinhas, nos canteiros, nos cantos, até no canto que a moça, distraída, canta espantando os seus monstros?

30.11.10

dos últimos acontecimentos

Minha frase ecoando nos quatro cantos da casa: era só o que me faltava! Mas se é mesmo o que me falta, então que fique. E que preencha. E que nunca vá embora.

11.11.10

Meio termo

Todos os dias, eu pego o ônibus com um homem que ergue o olhar para o fundo do transporte enquanto passa pela catraca, e deixa seus olhos irem deslizando desde as últimas cadeiras. Avançariam até as primeiras se não me encontrasse ali no meio do ônibus, com a cabeça baixa sobre um livro enquanto pedaços dos meus pensamentos vão caindo e indo embora pela janela.
Todos os dias, após os olhos desse homem encontrarem-me no meio termo, entre a dúvida impetuosa e a vontade de deixar que os seus olhos pousem nos meus, seus lábios abrem um sorriso desejando-me um bom dia.
Poderia ser gentil, e levantar os olhos do livro, e deixar que qualquer coisa que haja entre a divisão dos seus cílios convença-me de que eu estou completamente errada quando penso que não há mais nem mesmo uma fagulha de amor nesse mundo. E que me convença ainda de que o mundo não pode conspirar contra qualquer ser humano, por menorzinho que ele seja. Pois o mundo - azul e redondo - não pode fazer nada além do seu movimento de rotação e translação.
Mas nada disso eu posso enxergar quando os meus olhos, com medo de se perderem na imensidão que é o olhar do outro, mantêm-se fixos àquilo que eu acredito ser a realidade. E qualquer distância entre a minha cadeira e a sua pode ser ultrapassada por alguns passos. Mas a distância maior ainda é essa: a distância entre o pensar e o agir. A distância que meu medo, tão cheio de pernas, não consegue ultrapassar.

30.10.10

Par de sapatos

Sapatos são feitos aos pares. E aquele par que calçava em meus pés acusavam-me da perca de tempo que era se deixar estar sentada naquele degrau, enquanto o mundo sorria lá fora, e a primavera impunha a suas delicadezas no desabrochar de uma pequena flor. E foram esses mesmos sapatos que um dia me disseram que alguns passos adiante levariam-me ao além-mar, onde o mar e o céu se dão um abraço infinito. Mas um abraço não pode ser visto, e os sonhos não são tão fáceis de se dissipar quanto as nunvens. Esse par, que um dia evitou que meus pés, cansados, pisassem em problemas enquando eu não conseguia entender que um coração pode receber em troca do amor, a ingratidão de um outro que não se importa com o tanto de remendos que você precisará fazer depois da chuva forte e impetuosa. Esse par agora me olha. Esse par de sapatos - tão velhos - e tão belos quanto os silêncios de um girassól.

20.10.10

Primavera invencível

Era setembro, e eu nunca mais vou esquecer: eu andava nas ruas de pedra com os olhos cegos de lágrima; eu inudando as ruas nas águas das minhas tristezas; eu rompedo os muros e desmoronando casas; alagando ninhos de passarinhos e afogando as pessoas em águas choradas.

Se ao menos eu tivesse notado o quanto um cogumelo com teto de nylon acolhe, com suas hastes de material tão frio, e o seu cabo de metal inoxidável, o que os braços de um homem não quer mais; se ao menos tivesse notado as pequeninas flores de primavera que caíam sobre o cabelo da moça, adornando-a sem fita e sem laços, fazendo brotar a beleza não manifesta nos traços do rosto tão ríspido; se eu tivesse parado um instante, um instante que fosse, e admirado as pequenas plantinhas que insistem em nascer entre a terra e o asfalto, então eu teria me confortado, e teria me apaixonado mais uma vez por esse mundo real, que só queria olhos bem abertos para desabrochar em delicadezas. Delicadezas impostas em um raio de sol acariciando os rostos dos transeuntes. Mas tudo isso eu não pude ver numa manhã tão fria como uma pedra, quando os meus olhos, forrados por cílios e trancados com ferrolhos não quiseram enxergar o mundo por trás das cortinas; um mundo  entregando-me a mais bela das flores e dizendo: não chora que hoje é um dia feliz.

Então ele chegou em silêncio para dizer que os seus olhos também inundavam; que todos os olhos se inundam quando erguidos sobre o aterro da solidão. E que eu deixasse que toda a água corresse, para que então pudesse lavar a noite que existe no vazio do coração, tanto, tanto, e tanto... até que amanhecesse.

2.10.10

carta ao meu amigo Orlando

Querido Orlando,

Se é mesmo possível haver uma medição de tempo, eu desconfio. O relógio é só uma invenção do homem na tentativa de poder enxergar a passagem do tempo, e de alguma maneira, achar que ele pode estar nos números finitos. Mas quando eu seguro a tua mão, Orlando, e os nossos dedos se cruzam num vai e vem de caminhos perdidos, o tempo se esvai por entre as brechas e escorrega pelos braços, cotovelos... O tempo se esvai e some. Não no mesmo caminho da água. Ele entra nos poros e se aloja. E quando há muito tempo na sua pele, vai se tornando cada vez mais difícil pra ele se alojar de forma que você se sinta confortável. Então, na tentativa de salvar sua própria pele, a fim de que ela simplesmente não arrebente, ele se junta num cantinho, e vai juntando, e formando rugas, e se detendo nos cantos dos olhos, da boca, das mãos...

E eu fico aqui pensando se não há uma outra forma de termos tempo e não criarmos rugas. E se o tempo pudesse ser bebido, qual seria a forma que ele encontraria de sair, e criar uma enorme nuvem para então chover tempo novamente. A nuvem que, algum dia, desceria furiosa, castigando janelas e portas, enquanto eu tentasse salvar, no colo do meu vestido, a mais bonita de minhas histórias. E se o tempo nos regasse, se envelheceríamos de vez ou se impressionantemente teríamos ,enfim, a fórmula da juventude.

E ainda penso nisso: eu sentada naquela cadeira, folheando as idades passadas escritas no álbum de fotografia ou nas cartas a ti escritas. E penso, meu querido Orlando, com muita certeza, que qualquer tempo que exista entre as palavras e os corpos, entre o texto e a pele, ou entre os tecidos e as teias, não pode apagar da minha memória os teu olhos que um dia encontrei. E foi por eles, que um dia abri as janelas do meu quarto, e essas cartas comecei a te escrever.

11.9.10

telefone de lata

Glorinha, eu entendo, que quando a solidão é muito grande, o mundo escapa do seu eixo e se inclina de tal forma que você perde o equilíbrio, enquanto móveis, memórias e quadros escorregam com toda força, espatifando-se contra a outra parede. Eu entendo também, Glorinha, que nessas horas é difícil agarrar-se a qualquer borda e pedir que, por favor, a gravidade dessa situação não te leve embora. É nessas horas, onde os dedos por um fio seguram-se à última esperança que ainda insiste em manter-se firme no chão, que eu te procuro. E te faço algumas perguntas sobre gente grande que de repente some e não me leva junto. E te digo que o telefone toca milhões de vezes, mas ninguém do outro lado quer atender. Então eu me alivo tanto e tanto, que não importa em que situação o mundo esteja, não me importa se todas as linhas telefônicas do mundo estão ocupadas; o nosso telefone de lata sempre vai me permitir que eu escute um convite carinhoso: vamos ver os girassóis que acabaram de florir!

4.9.10

novos ares

Eu sei, só precisa de paz quem está em guerra. E não há guerra mais silenciosa do que essa: eu deitada sobre a grama, procurando qualquer flor na qual me agarrar antes que essa leveza me faça flutuar. Quando enfim acabarem as forças, e o medo de que eu possa voar se esvair pelos poros junto com o suor do esforço para manter-se em terra firme, ganharei asas. E voarei graças às 20 mil borboletas que rodopiam em minha barriga.

28.8.10

3 segundos

O teus dedos entrelaçados aos meus formam um cruzamento de caminhos perdidos. E eu não sei em qual eu poderia dar o primeiro passo. Apenas me perco. E eu deveria me encontrar quando encontrasse os teus olhos pousando suavemente nos meus. Mas há qualquer vazio nos teus olhos que me assustam. Há um vazio maior do que o azul, onde não encontro nuvem ou estrelas. Onde meus olhos, ao pensar que se encontraram, se perdem mais ainda. E atravessam labirintos, apavorados, porque não sabem que criatura habitaria por ali. Fogem. Tentam se esconder. Procuram qualquer luz na tentativa de achar a saída, mais aí, caem. Então encontram a tua mão estendida, estreitanto as distâncias e afastando as nuvens pra me avisar que já amanheceu, empurrando a manhã para dentro de nós.
Quando enfim amanhece, amor, novamente entrelaçamos os dedos...

23.8.10

sobre a pouca força

Folhas no chão são só pássaros que não têm força própria para voar e aproveitam carona nas asas do vento.

17.8.10

sobre a última noite estrelada

Não é apenas no mundo da imaginação. Por vezes, esse mundão todo fica desabitado, e a única sobrevivente é apenas uma garotinha assustada tentanto entender o porquê das coisas desaparecerem tão de repente. Quando a solidão pousa sobre o seu travesseiro e mistura-se aos seus sonhos, o mundo torna-se maior, e as distâncias só aumentam. As mãos já não podem mais se dar, os braços já não envolvem mais o outro, e até o grito mais alto que se possa dar não chega ao ouvido como um sussurro.

Não sei se o mundo cresce, e incha, e me encosta no céu, ou se o céu da noite simplesmente despenca. Mas o céu fica, por um fio, de me esmagar contra a terra. E o fio que o sustenta é só o rabo da última estrela cadente. A culpa é das estrelas. São tantas, que o céu pesa. E talvez a culpa também seja minha, de querê-las ao meu alcance...

Agarrada ao último sonho que ainda não foi embora, a garotinha chora baixinho, e pede ao seu amor que venha, venha logo. Venha junto com ela assistir à última noite estrelada. Amanhã, amor, não haverá mais céu nem nada. Se você só chegar aqui amanhã, só poderá ver poeira de estrelas, e uma menina soterrada à 3 mil metros de realidade.

11.8.10

Hoje

Hoje não falarei sobre a correria nem sobre a calmaria. Não falarei nem do branco nem do preto. Nem do claro nem do escuro. Nem sobre a paz nem sobre a guerra. Não gritarei aos céus que chova ou que faça sol. Não pedirei aos homens que sejam bons ou maus. Não quero o dia nem quente nem frio. Não plantarei e não colherei.

Hoje não calarei a voz, mas também não falarei. Não amarei e nem terei rancor. Não esquecerei nem lembrarei. Não dormirei nem acordarei. Não desprezarei nem apreciarei as flores. Não vou rir e nem vou chorar. Não rasgarei e nem costurarei. Não matarei e nem sararei o que está ferido. Não abraçarei e nem me afastarei. Não irei me isolar, mas também não me entregarei.


Hoje, somente hoje, por não fazer tais coisas, tragicamente, não viverei.
Nem morrerei.

7.8.10

Crônica de aniversário

Todas as pessoas são boas em alguma coisa. E por serem boas naquilo que fazer, ocupam uma cadeira no mundo, feita sob medida. Mas se The Beatles só existia agora no disco de vinil do colecionador, e se Pelé só entra em campo pra assistir jogo, como é que ela, uma menina feita de palavras, conseguiria sobreviver ao tempo e ao esquecimento? De que forma fugiria das borrachas e lixeiras que insistem em apagar a história escrita durante tantos anos?

Quis muito ser boa em alguma coisa, mas sempre que tentava algo novo os defeitos que possuía impossibilitavam-na de preenher uma cadeira sem que faltasse ou soubrasse alguma coisa. Então um dia resolveu sair de casa e procurar uma cadeira qualquer que pudesse preencher. A primeira cadeira era muito alta, e não pôde subir. Voltou pra casa chorando, encharcada de lágrima. Mas não desistiu! No outro dia, tentou novamente. Mas havia cadeiras altas, baixas, largas e estreitas, nunca uma que se encaixasse perfeitamente. E voltava sempre pra casa chorando, encharcando as suas roupas.

Até que, certo dia, não pôde mais sair de casa. Todas as suas roupas estavam no cesto de roupa suja! Então pegou as roupas manchadas de lágrimas, e levou para o quintal. Um passarinho a espiava, enquanto ela expiava os seus pecados. Foi quando lavou todas as suas roupas, tanto e tanto, que ficou muito cansada e deixou-se cair. Sentou no chão, e logo percebeu que ele a acolhera apesar das suas formas, dos seus defeitos. E que ela poderia não ter uma cadeira feita sob medida, mas tinha todo esse chão, e todas essas flores dispostas a lhe acolher. Então ela preencheu o seu lugar no mundo. E desde agora, e para sempre, lava suas roupas manchadas de histórias. E estende, pacientemente, uma a uma, as Roupas no Varal.

P.S.: 1 ano do meu bloguito! Acho que eu não esperava chegar até aqui. E nem sei se vou continuar. Mas, deixa rolar! :b

4.8.10

O Espetáculo, parte II

(...) Mas aquela bailarina era mesmo perfeita. Nunca iria olhar para mim, um pobre palhaço atrapalhado, que não sabe falar nada bonito que a encante. Não tenho nem um pouquinho de graça ao lado da doçura dela...- Era o que o Palhaço Assobio ficava pensando sempre ao final das apresentações, quando o circo não passa de uma tenda, habitação de humanos e mortais.
Mas ele a amava tanto, e tão sinceramente, e com tanta reserva, que nem chegava a desejá-la. Era um amor que não exigia maiores aproximações, não sonhava com a posse nem com a presença consentida, consciente e concreta do bem amado. Amava-a com tanta precaução, que sempre ao final da sua apresentação cuidava para que ela não o visse ali, com cara de bobo, com um sorriso que ia de uma ponta a outra do rosto. Ficava ali sentado acompanhando atenciosamente os passos da sua Bailarina. E a melhor parte era quando ela começava a rodopiar, a rodopiar, a rodopiar...
Mas na noite passada havia sido diferente. Com todo o descuido que tinha guardado consigo, tropeçou numa enorme caixa e espatifou-se em cima dos manequins. Foi exatamente na hora em que a Bailarina saía do palco, e encaminhava-se pro seu camarim.
- Você está bem?
O Palhaço logo reconheceu aquela boca estrelada. Não era possível! Sua Bailarina estava ali, de mãos estendidas, o ajudando...
- Sim! É que. Eu estou bem sim. É. Eu sou um pouco desastrado e acabei fazendo esse estrago!
Sentiu as faces coradas, e um calor que nunca havia sentido, nas bochechas tingidas. Mas então a música, nunca ouvida antes - e ah, como era belissíssima! - soou aos seus ouvidos. Penetrou-lhe os tímpanos, o cérebro, o coração, atingiu o estômago como um soco. Um soco e um abraço simultanêos. E nem teve tempo de apreciá-la direito, e ela já havia acabado. Enquando se levantava desajeitado, tentando arrumar a bagunça, viu a Bailarina indo embora, com um sorriso no canto da boca.
Desde ontem não ouviu outra coisa a não ser a risada da Bailarina. E quando quis dormir, não pôde, pois havia uma Bailarina em seus olhos. Quis pedir que ela, por favor, deixasse-o dormir, mas havia uma Bailarina atravessada na sua garganta.
Ah, minha doce Bailarina!

1.8.10

O Espetáculo, parte I

Não há nada mais gratificante do que ser o motivo da alegria das pessoas. - Alegava sempre o Palhaço Assobio. Como gostava de ser atrapalhado e estabanado! Como gostava de levar um belo tapa técnico na cara, cair, levantar desorientado, e ouvir aquele coral de gargalhadas! Nem a mais bela das mais belas sinfonias soava tão bem aos seus ouvidos quanto uma risada extrapolada! Ele realmente gostava de fazer feliz as outras pessoas. Mas só soube de verdade o que era ser feliz quando conheceu a sua bailarina. A Bailarina não fazia parte do seu acervo de perucas ou de paletós coloridos. Ela era o que nunca lhe pertenceria, mas que definitivamente, seria sempre sua.
Logo após a sua apresentação, o Palhaço Assobio escondia-se atrás das cortinas para esperar a apresentação da Bailarina. Ah, como ela era graciosa! Como era delicada, doce, tão bem detalhada, minunciosamente encaixada, chegava até a ser perfeita... E o sorriso, ah, o sorriso! Era ele o motivo principal daquela paixão secreta do Palhaço pela doce Bailarina. Era um sorriso tímido, de uma boquinha muída e vermelha, com uns dentinhos muito brilhantes.
- Ainda que todas as luzes do mundo se apagassem, e no céu não houvesse um só raio de sol, o sorriso da minha bailarina iluminaria desde o nosso circo até o Japão! (...)

21.7.10

Glorinha, me diz,

quando a gente não aguenta mais, o que acontece? A gente explode? Ou simplesmente flutua de tão cheio que está? Sim, porque tudo no mundo é limitado. Não vê que nosso corpo tem pele é pra isso mesmo? Pra conter o sangue que corre nas veias, pra dizer pro coração que ele só pode chegar até ali, e ai da gente se ele quiser sair do lugar!

Eu não queria entender, Glorinha, a lógica dos pássaros que, quando saem da gaiola, não voltam nunca. Eu só não queria entender porque eu tinha medo. Tinha medo do passarinho voltar a qualquer hora e dizer que saiu porque simplesmente uma gaiola não é o maior limite pra se viver. Se há um céu tão grande, onde cabe Sol, Lua, estrelas e um arco-íris com tantas cores, porque é que a gente insiste em ficar nesse chão cinza e frio, onde, se não fosse a terra e as sementes, seria tudo tão triste, tão cinza, tão morto...? 

O meu passarinho, apesar de longe, e talvez exatamente por isso, me ensinou: quando a dor é muito grande, ela extrapola o intagível e atinge músculos e tendões para só depois evaporar pelos poros. Depois que isso acontecer, e você só estiver bem cheio de vazio, encha o peito com mais de 3 mil suspiros, quando estiver bem levinho, solte as amarra e flutue.

19.7.10

Os guarda-chuvas

Não havia como esquecer: são dessas cenas que nunca escorregam aos calabouços do tempo; era a chuva perfurando a tarde e, naquele homem, abrindo fenda nos ombros; ele não tinha guarda-chuva e, parece, nem vontade de se molhar. Diante da poça de água, tentava arranjar qualquer modo de atravessá-la sem que se molhasse. Sabia muito bem, mais do que ninguém, que sapatos molhados trazem um peso a mais.

Não há como esquecer: são desses encontros que nunca evaporam junto com a chuva; era o homem fugindo do peso das coisas desnecessárias e, naquela tarde, deparando-se com a ajuda de uma desconhecida; ela não tinha intenções e, parece, nem vontade de tê-las. Mas as intenções são desses barquinhos de papel que, querendo ou não, são carregados pela chuva em direção de algum bueiro, a menos que um menino o salve dessa tragédia e o chame de meu.

Seu Galdino relutava em atravessar a poça, quando uma moça muito bonita e séria estendeu para ele o seu guarda-chuva. Desses guarda-chuvas que são estendidos em forma de ponte para estreitar os abismos que há entre um ombro e outro. Depois de entender as boas intenções da adorável Dona Flor, ele nunca mais teve que se preocupar com os seus sapatos molhados que o traziam um peso a mais. E ainda que molhasse, o que importava? Sua cabeça estava à salvo das gotas de chuva, porque sempre que chovia havia ao seu lado uma senhora muito séria empunhando toda a sua braveza nas gentilezas de um guarda-chuva.

14.7.10

A tempestade

Foi num dia em que o céu estava coberto pelas nuvens violentas, e ela teve muito medo do mundo. O mundo que se empunha sério, com toda a sua matemática, toda a sua lógica, todos os seus conceitos e regras. O mundo que não admitia mudanças. É assim que é, e terá que ser. Raquel encolheu-se no canto do seu quarto e procurou pelas prateleiras algo que não via há tempo. Não era simplesmente algo que ocupava um lugar ali, era algo que lhe trazia segurança, uma espécie de refúgio. Pousou os olhos nas prateleiras agora preenchidas por livros que na maioria das vezes só lhe davam breves momentos de euforia. E que, ao invés de estreitar os abismos que existia entre ela e seus sonhos, só abriam uma fenda muito mais profunda. Tão profunda que já não se podia mais ver o fim.

Perdida entre devaneios, mergulhou nas águas de agosto de um ano muito remoto. Era seu aniversário, e pela primeira vez quis escolher o seu presente. Não que o tivesse em mente. Queria encontrar um brinquedo que a escolhesse. Já havia lido em muitos livros (hábito que cultivara desde a infância) histórias incríveis de bonecos que falavam, andavam, sentiam como gente. Não acreditava nesse mundo encantado, mas sabia que no seu mundo ideial tudo poderia acontecer. Entrou numa loja. Foi então que seus olhos encontraram os olhos de um boneco de lata. O boneco estava muito escondido, e ela logo percebeu que ele também guardava muitos medos no seu interior de lata. Então eles se escolheram. O boneco passou a ser da menina, da mesma forma que ele a tinha como sua.

E por se pertencerem, não existia entre os dois nenhum tipo de egoísmo, ciúmes, ou essas coisas ruins que, quando há uma fresta, impedem que o amor encontre um lugar entre dois. Porque o amor só precisa disso: dois corações encostados um no outro, dispostos a sentirem e compartilharem tudo o que há dentro deles. Desde então, Raquel nunca mais se sentiu só, porque sabia que quando chegasse cansada da escola, de tanto correr e de tanto ser caçoada, poderia contar com seu boneco de lata, que a esperava com um grande sorriso metálico na sua prateleira. Encontrou refúgio nele para todos os momentos, inclusive nos dias em que o céu estava coberto por nuvens violentas, e ela tinha muito medo do mundo. Desde que encontrou seu homem de ferro, não teve mais medo de nada. Nem quando trovejou ou os raios faiscaram ferozes. Nem quando o céu fez menção de desabar. Depois desse dia, havia sempre um boneco muito reluzente, tão reluzente quando um raio vindo do céu, empunhando o seu carinho na sutileza de um abraço frio.

necessidade


Abraçar é preciso.

13.7.10

da bailarina

Não precisa ficar triste quando suas sapatilhas não mais entrarem no seus pés. Se a música ainda tocar, serás sempre uma bailarina. Enquanto a vontade de voar estiver em cada gesto da tua dança involuntária, ainda vais poder sentir os olhos dos expectadores atentos aos movimentos, a cada gesto. A mão erguida por cima da cabeça, e em seguida, o salto.

Você é só uma criança crescida, querida. Uma bailarina que dança no palco da vida. Enquando as palavras mágicas estiverem presentes no começo de cada nova dança, você ainda vai poder rodopiar, e rodopiar, e rodopiar até que se trasnforme em uma linda bailarina de caixinha de música.

10.7.10

sementes de girassól

Querido Orlando,

Como é que a gente pode perder as coisas que nunca teve? E deixar que o tempo as leve pra longe da gente até que nossos olhos não as alcance mais? Quando o tempo leva, não há ponte que una dois olhares abandonados. Não há agulha nem linha do tempo que reate dois corações afastados por motivos que não são importantes. Será que é assim que as coisas vão embora? Ou talvez nem cheguem?

Mas hoje eu abri a janela e mal consegui acreditar! Inspirei um milhão de cores e expirei uma explosão de flores, escapando afoitas do meu peito. Abri a janela e vi: o meu girassól brotou! Por que há isso de extraordinário no mundo, Orlando. Quando alguém rejeita os seus cuidados, por algum motivo muito importante pra ele ou por motivo nenhum, você pode plantar um girassól. E pode regá-lo, vê-lo crescer, pode falar com ele, amá-lo... Mas você sabe bem que seu girassól nunca vai criar pernas e ir embora de você. O seu girassól vê o amor que você tem por ele quando o banha exageradamente, e quando o olha com os olhos de uma mãe. Olhei pro meu girassól e vi que tudo é tão bonito, tudo tão… inacreditavelmente perfeito e encaixado que nem a maldade dos homens, de seis bilhões de homenzinhos pequeninhos, pode ser maior do que o conjunto das estrelas erradias, ainda mais quando metade de cada homem também é amor…

Porque eu sei, Orlando, que somos feitos de bem e mal. E eu que achava que era a culpada disso tudo, que tinha feito ou deixado de fazer algo e por isso o outro foi embora, eu que nem acreditava mais em mim... Você só quis me mostrar que eu podia ser maior, não do que os outros, mas que eu podia ser maior que os meus medos ou até mesmo do lado mau que há em mim. Você me mostrou bem isso quando chegou sorrindo e me deu aquelas sementes de girassól.

4.7.10

Desabafo


Senhor,

Eu já estava no ônibus quando hesitei, quando desci no primeiro ponto que a agulha fez entre nós. Voltei correndo pra casa, subi as escadas em espiral, passei a chave na porta e juro que ouvi a nossa música tocando no rádio. Mais uma vez voltei pra casa, senhor. E encontrei-a arrasada.

A mesa ainda posta, as cadeiras separadas pelas migalhas de pão. As violetas murchas na janela, denunciando a falta de cuidados, ou até mesmo os exagerados, que o senhor teve com elas. Não lembra como ensinei? É preciso molhar os dedos, e deixar que a água vá pingando e umedecendo toda a terra. Minhas mãos na cintura. A camisa sobre a cama, à espera de um abraço. Alguma casa sem botão. Botão sem a casa. A casa. A casa. A casa? A casa vazia. Meu desespero através do espelho. A cortina descosturada no ponto que a agulha (essa que ensina a costurar as feridas, senhor) não deu.

A colcha de retalhos bordada de flores murchas. A meia sem o par. Um jarro na parede. O grito alto. Um porta-retrato no chão dividido em dois. O ponteiro no dez. Nós dois tentando correr atrás do tempo que a tesoura cortou em quatro pedaços. Meu desabafo em cada canto da parede. As mãos sobre o colo, em desespero. A porta fechando-se rancorosa.
Pode mesmo acabar assim um casamento, senhor?

3.7.10

da solidão

Não precisa ficar com medo. Quando o tempo se preparar para chover e o céu ameaçar explodir, eu vou brincar na chuva com você. E vou te abraçar tão forte, que esse sentimento de solidão irá se trasnformar em sete mil borboletas rodopiando na sua cabeça. Então você vai entender que quando alguém vai embora sem dar explicação é porque a história que ele iria te contar não tem fadas, nem bichos que falam, nem um pote de ouro no fim do arco-íris. E essa pessoa sabe que histórias que não tem mágica não te interessam. Te deixar sem ao menos dar um adeus talvez tenha sido a maneira mais bonita que o outro encontrou de te dizer que, de alguma forma, te ama.