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14.3.12
Sobre amanhecer-se
À medida que abriu os olhos, abriu também a manhã. E ao levantar os braços, estendeu por cima de si o céu, fazendo cair nos seus pés as estrelas erradias da última noite. Sorriu ao ver a revoada dos pássaros através da janela; ela mesma também estava voltando para o lugar donde partira. Durante a última noite, entendeu que qualquer ruído pode ser um trovão. Apoderou-se do silêncio, e não deixou nem que o pensamento falasse alto. Sentiu um aperto pela solidão das coisas e quis - embora em vão - segurar a lágrima que saltava dos olhos. Rompeu-se. Quando a tristeza é grande, como o mar, a lágrima é salgada. Inundou-se. Depois, deixou escoar de dentro de si os vestígios restantes da solidão. Desapegou-se. Seguiu o conselho: amanheceu-se, enfim.
23.9.11
Como a primavera pode começar
Antes da segunda parte do trabalho, uma pausa para o chá. À minha frente está um homem de olhos de pêssego. Uns olhos assim tão doces e suaves que até se tem vontade de comê-los. Todas as tardes pede o chá de maçã, cravo e canela, e se ajeita o mais confortável possível, como se pudesse passar todo o resto da tarde ali. Eu olho pra o relógio impaciente, contando cada segundo pra o retorno ao trabalho.
- O meu é de camomila, por favor!
Durante o chá ele levanta os olhos (que vontade de comê-los!) e o elogia. Enquanto isso, o vapor que sai do chá mistura-se com o som da suas palavras que agora tem cheiro e cor. O homem à minha frente vai tomando o chá aos poucos, assoprando-o. Eu dou o primeiro gole e ai! Queimei a língua!
Depois do chá, chama o garçom e paga a conta. Agora seus dedos estão aninhados nos meus. Se fôssemos semente e terra, as suas raízes estariam em mim, e eu as alimentaria. Mas como dois seres assim tão diferentes podem fazer brotar uma flor?
- O meu é de camomila, por favor!
Durante o chá ele levanta os olhos (que vontade de comê-los!) e o elogia. Enquanto isso, o vapor que sai do chá mistura-se com o som da suas palavras que agora tem cheiro e cor. O homem à minha frente vai tomando o chá aos poucos, assoprando-o. Eu dou o primeiro gole e ai! Queimei a língua!
Depois do chá, chama o garçom e paga a conta. Agora seus dedos estão aninhados nos meus. Se fôssemos semente e terra, as suas raízes estariam em mim, e eu as alimentaria. Mas como dois seres assim tão diferentes podem fazer brotar uma flor?
4.9.11
os passarinhos
Quando era de manhã e Glorinha se acordava para dar comida aos passarinhos que a esperavam no quintal, ela ia correndo e gritando: hora de comer, passarinhos! Está na hora de comer!
Então o seu avô, Seu Cândido, a chamava, afagava a sua cabeça e pedia com doçura nos olhos e na fala: Não dê tempo aos passarinhos.
Então o seu avô, Seu Cândido, a chamava, afagava a sua cabeça e pedia com doçura nos olhos e na fala: Não dê tempo aos passarinhos.
26.8.11
o tempo, parte II
O trabalho com os relógios havia ajudado ao Seu Cândido a serenar quando o que se quer mesmo fazer é trovejar. Pois havia aprendido que tempo não é relógio, dinheiro, remédio... Ele sabia que, muitas vezes, nem o tempo cura. Para ele, tempo era aprendizagem, sabedoria. Um livro à disposição de analfabetos e doutores, míopes e estigmáticos, daltônicos, juízes e réus. Um livro de respostas para muitas perguntas. Mas ele sabia que, muitas vezes, nem o tempo é capaz de dizer.
24.8.11
o tempo, parte I
Sempre que interrogado sobre sua ocupação, Seu Cândido respondia que trabalhava com o tempo. A verdade era que ele trabalhava com as horas e passava a maior parte dela na sua oficina consertando relógios. Ele era Cândido no nome e na alma. E fazia jus ao nome que recebera no nascimento assim como os pássaros o fazem. (...)
22.7.11
Feliz aniversário, decepção
Há vidas que se vivem em um dia. Mas há dias que podem durar uma vida inteira. E foi assim com nós dois.
Enquanto o universo tinha as coisas individuais, - um céu, um sol, um mar - nós éramos dois. E éramos como quem só podia ser hoje e agora: como se o amanhã fosse algo muito distante e incerto.
Era agosto e, enquanto eu estava refugiada com os meus medos, seus olhos de infinito me encontraram. Os medos afloraram e apelaram em gritos, rancorosos da última vez que eu os deixei transparecer. Mas aqueles eram olhos que não tinham segredos ou códigos, tão translúcidos como a água deste copo e não me davam alternativas... Porque existem olhos que são úmidos de oceano, que não ferem e nem rasgam, que são capazes de atravessar o céu sem perfurar as estrelas.
Eu deveria abrir mão da primavera do mês seguinte, de plantar as sementes no mês seguinte. E eu não sabia mais sobre o que falar, porque eu vivia as outras estações somente pela primavera. Era sobre isso que eu sabia falar: sobre as sementes germinando, sobre o regador, sobre como evitar as formigas e, principalmente, sobre como recolher as novas sementes. É sobre os girassóis que eu falo para o mundo, e ele gosta de me ouvir.
Eu resistia escutando os meus medos gritarem na minha cara que, apesar de você me assegurar que não era igual aos outros e que duraria muito mais que a primavera, pois era amigo das flores de plásticos (as imortais flores de plástico!), você era igual. Mas eu não quis ouvir, e eu não pude evitar quando você me perguntou: vai fugir até quando?
Eu abri mão da primavera do mês seguinte, de plantar as sementes no mês seguinte. E agora, quando eu encostar a minha mão na sua e nascerem árvores de plástico como é que vai ser? Será que o mundo vai tampar os ouvidos? Será?
10.6.11
A narradora
As ideias, como pássaros, pousaram lentamente sobre sua cabeça. Rodearam-na durante dias, até que conseguiram fazer adormecer os seus medos. Porque a menina contadora de histórias, sentada no último degrau da escada, não sabia em que ponto da história havia se perdido. Não sabia se havia sido no nó da linha do tempo, ou se a própria linha havia acabado. Quando chegaram ao último ponto, tudo o que restava era uma menina, de olhos e cabelos castanhos profundos, sentada no último degrau da escada em espiral, exatamente no último degrau onde havia escrito o último parágrafo da mais bela de suas histórias. E agora as histórias estavam apenas nos seus livros, nos guardanapos, até nas paredes do quarto, pois, se teria que viver trancada, que fosse entre quatro páginas.
As palavras que foram sussurradas agitavam as flores azuis que ela segurava no retrato, e ao seu lado só existia um monte de nada. Não era sequer o nada, já que o nada tem contornos bem definidos, os contornos daquilo que poderia existir, mas não. A menina das mãos desamparadas, sem poder alcançar parágrafo nem pontuação, sabia que deveria haver uma história ao seu lado, uma história que não enxergava, uma história que não participava e, tampouco, conseguia entrar. Ou não sabia. O outro narrador também não. Mas ela não sairia de suas páginas enquanto o seu coração estivesse vazio: um coração cheio de saudade está vazio. Pois, no dia em que todos forem embora, quem ficará para chorar? Até esse dia, ficarão assim, ela tão perdida quanto ele, sem saber aonde essa história vai dar.
As palavras que foram sussurradas agitavam as flores azuis que ela segurava no retrato, e ao seu lado só existia um monte de nada. Não era sequer o nada, já que o nada tem contornos bem definidos, os contornos daquilo que poderia existir, mas não. A menina das mãos desamparadas, sem poder alcançar parágrafo nem pontuação, sabia que deveria haver uma história ao seu lado, uma história que não enxergava, uma história que não participava e, tampouco, conseguia entrar. Ou não sabia. O outro narrador também não. Mas ela não sairia de suas páginas enquanto o seu coração estivesse vazio: um coração cheio de saudade está vazio. Pois, no dia em que todos forem embora, quem ficará para chorar? Até esse dia, ficarão assim, ela tão perdida quanto ele, sem saber aonde essa história vai dar.
25.4.11
Nos dias de Chuva
Atravessou a rua em direção a Padaria do Seu Teodoro, num dia de inverno, debaixo do seu guarda-chuva amarelo, e ia atenta ao mundo e as pessoas. Tentava decifrar todos os rostos, todas as feições. Estaria esse feliz? Por que motivo este outro está com a testa franzida? Deve ser por que tomou café sem leite. Ou talvez a sua carona demorou, demorou, demorou, e ele teve que andar debaixo desse guarda-chuva, sozinho. Mas, eu acho que deve ter sido mesmo o café sem leite. Café sem leite definitivamente entristece as pessoas.
Mais alguns passos adiante, - não muitos, porque a padaria ficava logo na esquina da sua casa, mas esse era o único lugar mais longe que poderia ir sozinha, por isso, aproveitava cada segundo - outras tentativas de decifração de rostos, e Glorinha pensa numa outra alternativa.
- Um dia de inverno é um dia de solidão. - pensou Glorinha - Dia em que as pessoas se encolhem debaixo de agasalhos, e se dão um abraço apertado, com os lábios tremendo... Mas não tem ninguém ali nem pra abraçar nem pra beijar. Um dia de inverno é um dia de solidão - repetiu Glorinha.
E foi, olhando agora pra cada rosto e encontrando neles a falta de alguém, a falta do bom dia que só é quentinho quando se está debaixo do cobertor, das meias nos pés que o mantém aquecido durante a noite, do café levado até a cama junto com uma rosa. Um café com leite que essas pessoas não tomaram.
Mais alguns passos adiante, - não muitos, porque a padaria ficava logo na esquina da sua casa, mas esse era o único lugar mais longe que poderia ir sozinha, por isso, aproveitava cada segundo - outras tentativas de decifração de rostos, e Glorinha pensa numa outra alternativa.
- Um dia de inverno é um dia de solidão. - pensou Glorinha - Dia em que as pessoas se encolhem debaixo de agasalhos, e se dão um abraço apertado, com os lábios tremendo... Mas não tem ninguém ali nem pra abraçar nem pra beijar. Um dia de inverno é um dia de solidão - repetiu Glorinha.
E foi, olhando agora pra cada rosto e encontrando neles a falta de alguém, a falta do bom dia que só é quentinho quando se está debaixo do cobertor, das meias nos pés que o mantém aquecido durante a noite, do café levado até a cama junto com uma rosa. Um café com leite que essas pessoas não tomaram.
25.1.11
Conselhos de fadas
A Glorinha me apareceu muito triste um dia desses. Chegou com os olhos embotados de lágrimas, a coitada. Soluçava e falava ao mesmo tempo, e eu não entendi nada. Ofereci sorvete e o ombro: ela aceitou. E me falou sobre alguns machucados do seu coração que doíam bastante. Mas eu disse a ela que não, não valia a pena chorar por esses bobos! É isso o que eles são, Glorinha: uns bobos! São apenas garotos com corações cheios de maldade, que gostam de ver chorar garotas assim como você. Garotas boas, que merecem uma pessoa tão especial que talvez nem exista nessa Terra.
11.11.10
Meio termo
Todos os dias, eu pego o ônibus com um homem que ergue o olhar para o fundo do transporte enquanto passa pela catraca, e deixa seus olhos irem deslizando desde as últimas cadeiras. Avançariam até as primeiras se não me encontrasse ali no meio do ônibus, com a cabeça baixa sobre um livro enquanto pedaços dos meus pensamentos vão caindo e indo embora pela janela.
Todos os dias, após os olhos desse homem encontrarem-me no meio termo, entre a dúvida impetuosa e a vontade de deixar que os seus olhos pousem nos meus, seus lábios abrem um sorriso desejando-me um bom dia.
Poderia ser gentil, e levantar os olhos do livro, e deixar que qualquer coisa que haja entre a divisão dos seus cílios convença-me de que eu estou completamente errada quando penso que não há mais nem mesmo uma fagulha de amor nesse mundo. E que me convença ainda de que o mundo não pode conspirar contra qualquer ser humano, por menorzinho que ele seja. Pois o mundo - azul e redondo - não pode fazer nada além do seu movimento de rotação e translação.
Mas nada disso eu posso enxergar quando os meus olhos, com medo de se perderem na imensidão que é o olhar do outro, mantêm-se fixos àquilo que eu acredito ser a realidade. E qualquer distância entre a minha cadeira e a sua pode ser ultrapassada por alguns passos. Mas a distância maior ainda é essa: a distância entre o pensar e o agir. A distância que meu medo, tão cheio de pernas, não consegue ultrapassar.
Todos os dias, após os olhos desse homem encontrarem-me no meio termo, entre a dúvida impetuosa e a vontade de deixar que os seus olhos pousem nos meus, seus lábios abrem um sorriso desejando-me um bom dia.
Poderia ser gentil, e levantar os olhos do livro, e deixar que qualquer coisa que haja entre a divisão dos seus cílios convença-me de que eu estou completamente errada quando penso que não há mais nem mesmo uma fagulha de amor nesse mundo. E que me convença ainda de que o mundo não pode conspirar contra qualquer ser humano, por menorzinho que ele seja. Pois o mundo - azul e redondo - não pode fazer nada além do seu movimento de rotação e translação.
Mas nada disso eu posso enxergar quando os meus olhos, com medo de se perderem na imensidão que é o olhar do outro, mantêm-se fixos àquilo que eu acredito ser a realidade. E qualquer distância entre a minha cadeira e a sua pode ser ultrapassada por alguns passos. Mas a distância maior ainda é essa: a distância entre o pensar e o agir. A distância que meu medo, tão cheio de pernas, não consegue ultrapassar.
30.10.10
Par de sapatos
Sapatos são feitos aos pares. E aquele par que calçava em meus pés acusavam-me da perca de tempo que era se deixar estar sentada naquele degrau, enquanto o mundo sorria lá fora, e a primavera impunha a suas delicadezas no desabrochar de uma pequena flor. E foram esses mesmos sapatos que um dia me disseram que alguns passos adiante levariam-me ao além-mar, onde o mar e o céu se dão um abraço infinito. Mas um abraço não pode ser visto, e os sonhos não são tão fáceis de se dissipar quanto as nunvens. Esse par, que um dia evitou que meus pés, cansados, pisassem em problemas enquando eu não conseguia entender que um coração pode receber em troca do amor, a ingratidão de um outro que não se importa com o tanto de remendos que você precisará fazer depois da chuva forte e impetuosa. Esse par agora me olha. Esse par de sapatos - tão velhos - e tão belos quanto os silêncios de um girassól.
20.10.10
Primavera invencível
Era setembro, e eu nunca mais vou esquecer: eu andava nas ruas de pedra com os olhos cegos de lágrima; eu inudando as ruas nas águas das minhas tristezas; eu rompedo os muros e desmoronando casas; alagando ninhos de passarinhos e afogando as pessoas em águas choradas.
Se ao menos eu tivesse notado o quanto um cogumelo com teto de nylon acolhe, com suas hastes de material tão frio, e o seu cabo de metal inoxidável, o que os braços de um homem não quer mais; se ao menos tivesse notado as pequeninas flores de primavera que caíam sobre o cabelo da moça, adornando-a sem fita e sem laços, fazendo brotar a beleza não manifesta nos traços do rosto tão ríspido; se eu tivesse parado um instante, um instante que fosse, e admirado as pequenas plantinhas que insistem em nascer entre a terra e o asfalto, então eu teria me confortado, e teria me apaixonado mais uma vez por esse mundo real, que só queria olhos bem abertos para desabrochar em delicadezas. Delicadezas impostas em um raio de sol acariciando os rostos dos transeuntes. Mas tudo isso eu não pude ver numa manhã tão fria como uma pedra, quando os meus olhos, forrados por cílios e trancados com ferrolhos não quiseram enxergar o mundo por trás das cortinas; um mundo entregando-me a mais bela das flores e dizendo: não chora que hoje é um dia feliz.
Então ele chegou em silêncio para dizer que os seus olhos também inundavam; que todos os olhos se inundam quando erguidos sobre o aterro da solidão. E que eu deixasse que toda a água corresse, para que então pudesse lavar a noite que existe no vazio do coração, tanto, tanto, e tanto... até que amanhecesse.
Se ao menos eu tivesse notado o quanto um cogumelo com teto de nylon acolhe, com suas hastes de material tão frio, e o seu cabo de metal inoxidável, o que os braços de um homem não quer mais; se ao menos tivesse notado as pequeninas flores de primavera que caíam sobre o cabelo da moça, adornando-a sem fita e sem laços, fazendo brotar a beleza não manifesta nos traços do rosto tão ríspido; se eu tivesse parado um instante, um instante que fosse, e admirado as pequenas plantinhas que insistem em nascer entre a terra e o asfalto, então eu teria me confortado, e teria me apaixonado mais uma vez por esse mundo real, que só queria olhos bem abertos para desabrochar em delicadezas. Delicadezas impostas em um raio de sol acariciando os rostos dos transeuntes. Mas tudo isso eu não pude ver numa manhã tão fria como uma pedra, quando os meus olhos, forrados por cílios e trancados com ferrolhos não quiseram enxergar o mundo por trás das cortinas; um mundo entregando-me a mais bela das flores e dizendo: não chora que hoje é um dia feliz.
Então ele chegou em silêncio para dizer que os seus olhos também inundavam; que todos os olhos se inundam quando erguidos sobre o aterro da solidão. E que eu deixasse que toda a água corresse, para que então pudesse lavar a noite que existe no vazio do coração, tanto, tanto, e tanto... até que amanhecesse.
28.8.10
3 segundos
O teus dedos entrelaçados aos meus formam um cruzamento de caminhos perdidos. E eu não sei em qual eu poderia dar o primeiro passo. Apenas me perco. E eu deveria me encontrar quando encontrasse os teus olhos pousando suavemente nos meus. Mas há qualquer vazio nos teus olhos que me assustam. Há um vazio maior do que o azul, onde não encontro nuvem ou estrelas. Onde meus olhos, ao pensar que se encontraram, se perdem mais ainda. E atravessam labirintos, apavorados, porque não sabem que criatura habitaria por ali. Fogem. Tentam se esconder. Procuram qualquer luz na tentativa de achar a saída, mais aí, caem. Então encontram a tua mão estendida, estreitanto as distâncias e afastando as nuvens pra me avisar que já amanheceu, empurrando a manhã para dentro de nós.
Quando enfim amanhece, amor, novamente entrelaçamos os dedos...
Quando enfim amanhece, amor, novamente entrelaçamos os dedos...
17.8.10
sobre a última noite estrelada
Não é apenas no mundo da imaginação. Por vezes, esse mundão todo fica desabitado, e a única sobrevivente é apenas uma garotinha assustada tentanto entender o porquê das coisas desaparecerem tão de repente. Quando a solidão pousa sobre o seu travesseiro e mistura-se aos seus sonhos, o mundo torna-se maior, e as distâncias só aumentam. As mãos já não podem mais se dar, os braços já não envolvem mais o outro, e até o grito mais alto que se possa dar não chega ao ouvido como um sussurro.
Não sei se o mundo cresce, e incha, e me encosta no céu, ou se o céu da noite simplesmente despenca. Mas o céu fica, por um fio, de me esmagar contra a terra. E o fio que o sustenta é só o rabo da última estrela cadente. A culpa é das estrelas. São tantas, que o céu pesa. E talvez a culpa também seja minha, de querê-las ao meu alcance...
Agarrada ao último sonho que ainda não foi embora, a garotinha chora baixinho, e pede ao seu amor que venha, venha logo. Venha junto com ela assistir à última noite estrelada. Amanhã, amor, não haverá mais céu nem nada. Se você só chegar aqui amanhã, só poderá ver poeira de estrelas, e uma menina soterrada à 3 mil metros de realidade.
Não sei se o mundo cresce, e incha, e me encosta no céu, ou se o céu da noite simplesmente despenca. Mas o céu fica, por um fio, de me esmagar contra a terra. E o fio que o sustenta é só o rabo da última estrela cadente. A culpa é das estrelas. São tantas, que o céu pesa. E talvez a culpa também seja minha, de querê-las ao meu alcance...
Agarrada ao último sonho que ainda não foi embora, a garotinha chora baixinho, e pede ao seu amor que venha, venha logo. Venha junto com ela assistir à última noite estrelada. Amanhã, amor, não haverá mais céu nem nada. Se você só chegar aqui amanhã, só poderá ver poeira de estrelas, e uma menina soterrada à 3 mil metros de realidade.
7.8.10
Crônica de aniversário
Todas as pessoas são boas em alguma coisa. E por serem boas naquilo que fazer, ocupam uma cadeira no mundo, feita sob medida. Mas se The Beatles só existia agora no disco de vinil do colecionador, e se Pelé só entra em campo pra assistir jogo, como é que ela, uma menina feita de palavras, conseguiria sobreviver ao tempo e ao esquecimento? De que forma fugiria das borrachas e lixeiras que insistem em apagar a história escrita durante tantos anos?
Quis muito ser boa em alguma coisa, mas sempre que tentava algo novo os defeitos que possuía impossibilitavam-na de preenher uma cadeira sem que faltasse ou soubrasse alguma coisa. Então um dia resolveu sair de casa e procurar uma cadeira qualquer que pudesse preencher. A primeira cadeira era muito alta, e não pôde subir. Voltou pra casa chorando, encharcada de lágrima. Mas não desistiu! No outro dia, tentou novamente. Mas havia cadeiras altas, baixas, largas e estreitas, nunca uma que se encaixasse perfeitamente. E voltava sempre pra casa chorando, encharcando as suas roupas.
Até que, certo dia, não pôde mais sair de casa. Todas as suas roupas estavam no cesto de roupa suja! Então pegou as roupas manchadas de lágrimas, e levou para o quintal. Um passarinho a espiava, enquanto ela expiava os seus pecados. Foi quando lavou todas as suas roupas, tanto e tanto, que ficou muito cansada e deixou-se cair. Sentou no chão, e logo percebeu que ele a acolhera apesar das suas formas, dos seus defeitos. E que ela poderia não ter uma cadeira feita sob medida, mas tinha todo esse chão, e todas essas flores dispostas a lhe acolher. Então ela preencheu o seu lugar no mundo. E desde agora, e para sempre, lava suas roupas manchadas de histórias. E estende, pacientemente, uma a uma, as Roupas no Varal.
P.S.: 1 ano do meu bloguito! Acho que eu não esperava chegar até aqui. E nem sei se vou continuar. Mas, deixa rolar! :b
Quis muito ser boa em alguma coisa, mas sempre que tentava algo novo os defeitos que possuía impossibilitavam-na de preenher uma cadeira sem que faltasse ou soubrasse alguma coisa. Então um dia resolveu sair de casa e procurar uma cadeira qualquer que pudesse preencher. A primeira cadeira era muito alta, e não pôde subir. Voltou pra casa chorando, encharcada de lágrima. Mas não desistiu! No outro dia, tentou novamente. Mas havia cadeiras altas, baixas, largas e estreitas, nunca uma que se encaixasse perfeitamente. E voltava sempre pra casa chorando, encharcando as suas roupas.
Até que, certo dia, não pôde mais sair de casa. Todas as suas roupas estavam no cesto de roupa suja! Então pegou as roupas manchadas de lágrimas, e levou para o quintal. Um passarinho a espiava, enquanto ela expiava os seus pecados. Foi quando lavou todas as suas roupas, tanto e tanto, que ficou muito cansada e deixou-se cair. Sentou no chão, e logo percebeu que ele a acolhera apesar das suas formas, dos seus defeitos. E que ela poderia não ter uma cadeira feita sob medida, mas tinha todo esse chão, e todas essas flores dispostas a lhe acolher. Então ela preencheu o seu lugar no mundo. E desde agora, e para sempre, lava suas roupas manchadas de histórias. E estende, pacientemente, uma a uma, as Roupas no Varal.
P.S.: 1 ano do meu bloguito! Acho que eu não esperava chegar até aqui. E nem sei se vou continuar. Mas, deixa rolar! :b
4.8.10
O Espetáculo, parte II
(...) Mas aquela bailarina era mesmo perfeita. Nunca iria olhar para mim, um pobre palhaço atrapalhado, que não sabe falar nada bonito que a encante. Não tenho nem um pouquinho de graça ao lado da doçura dela...- Era o que o Palhaço Assobio ficava pensando sempre ao final das apresentações, quando o circo não passa de uma tenda, habitação de humanos e mortais.
Mas ele a amava tanto, e tão sinceramente, e com tanta reserva, que nem chegava a desejá-la. Era um amor que não exigia maiores aproximações, não sonhava com a posse nem com a presença consentida, consciente e concreta do bem amado. Amava-a com tanta precaução, que sempre ao final da sua apresentação cuidava para que ela não o visse ali, com cara de bobo, com um sorriso que ia de uma ponta a outra do rosto. Ficava ali sentado acompanhando atenciosamente os passos da sua Bailarina. E a melhor parte era quando ela começava a rodopiar, a rodopiar, a rodopiar...
Mas na noite passada havia sido diferente. Com todo o descuido que tinha guardado consigo, tropeçou numa enorme caixa e espatifou-se em cima dos manequins. Foi exatamente na hora em que a Bailarina saía do palco, e encaminhava-se pro seu camarim.
- Você está bem?
O Palhaço logo reconheceu aquela boca estrelada. Não era possível! Sua Bailarina estava ali, de mãos estendidas, o ajudando...
- Sim! É que. Eu estou bem sim. É. Eu sou um pouco desastrado e acabei fazendo esse estrago!
Sentiu as faces coradas, e um calor que nunca havia sentido, nas bochechas tingidas. Mas então a música, nunca ouvida antes - e ah, como era belissíssima! - soou aos seus ouvidos. Penetrou-lhe os tímpanos, o cérebro, o coração, atingiu o estômago como um soco. Um soco e um abraço simultanêos. E nem teve tempo de apreciá-la direito, e ela já havia acabado. Enquando se levantava desajeitado, tentando arrumar a bagunça, viu a Bailarina indo embora, com um sorriso no canto da boca.
Desde ontem não ouviu outra coisa a não ser a risada da Bailarina. E quando quis dormir, não pôde, pois havia uma Bailarina em seus olhos. Quis pedir que ela, por favor, deixasse-o dormir, mas havia uma Bailarina atravessada na sua garganta.
Ah, minha doce Bailarina!
Mas ele a amava tanto, e tão sinceramente, e com tanta reserva, que nem chegava a desejá-la. Era um amor que não exigia maiores aproximações, não sonhava com a posse nem com a presença consentida, consciente e concreta do bem amado. Amava-a com tanta precaução, que sempre ao final da sua apresentação cuidava para que ela não o visse ali, com cara de bobo, com um sorriso que ia de uma ponta a outra do rosto. Ficava ali sentado acompanhando atenciosamente os passos da sua Bailarina. E a melhor parte era quando ela começava a rodopiar, a rodopiar, a rodopiar...
Mas na noite passada havia sido diferente. Com todo o descuido que tinha guardado consigo, tropeçou numa enorme caixa e espatifou-se em cima dos manequins. Foi exatamente na hora em que a Bailarina saía do palco, e encaminhava-se pro seu camarim.
- Você está bem?
O Palhaço logo reconheceu aquela boca estrelada. Não era possível! Sua Bailarina estava ali, de mãos estendidas, o ajudando...
- Sim! É que. Eu estou bem sim. É. Eu sou um pouco desastrado e acabei fazendo esse estrago!
Sentiu as faces coradas, e um calor que nunca havia sentido, nas bochechas tingidas. Mas então a música, nunca ouvida antes - e ah, como era belissíssima! - soou aos seus ouvidos. Penetrou-lhe os tímpanos, o cérebro, o coração, atingiu o estômago como um soco. Um soco e um abraço simultanêos. E nem teve tempo de apreciá-la direito, e ela já havia acabado. Enquando se levantava desajeitado, tentando arrumar a bagunça, viu a Bailarina indo embora, com um sorriso no canto da boca.
Desde ontem não ouviu outra coisa a não ser a risada da Bailarina. E quando quis dormir, não pôde, pois havia uma Bailarina em seus olhos. Quis pedir que ela, por favor, deixasse-o dormir, mas havia uma Bailarina atravessada na sua garganta.
Ah, minha doce Bailarina!
1.8.10
O Espetáculo, parte I

Logo após a sua apresentação, o Palhaço Assobio escondia-se atrás das cortinas para esperar a apresentação da Bailarina. Ah, como ela era graciosa! Como era delicada, doce, tão bem detalhada, minunciosamente encaixada, chegava até a ser perfeita... E o sorriso, ah, o sorriso! Era ele o motivo principal daquela paixão secreta do Palhaço pela doce Bailarina. Era um sorriso tímido, de uma boquinha muída e vermelha, com uns dentinhos muito brilhantes.
- Ainda que todas as luzes do mundo se apagassem, e no céu não houvesse um só raio de sol, o sorriso da minha bailarina iluminaria desde o nosso circo até o Japão! (...)
19.7.10
Os guarda-chuvas

Não há como esquecer: são desses encontros que nunca evaporam junto com a chuva; era o homem fugindo do peso das coisas desnecessárias e, naquela tarde, deparando-se com a ajuda de uma desconhecida; ela não tinha intenções e, parece, nem vontade de tê-las. Mas as intenções são desses barquinhos de papel que, querendo ou não, são carregados pela chuva em direção de algum bueiro, a menos que um menino o salve dessa tragédia e o chame de meu.
Seu Galdino relutava em atravessar a poça, quando uma moça muito bonita e séria estendeu para ele o seu guarda-chuva. Desses guarda-chuvas que são estendidos em forma de ponte para estreitar os abismos que há entre um ombro e outro. Depois de entender as boas intenções da adorável Dona Flor, ele nunca mais teve que se preocupar com os seus sapatos molhados que o traziam um peso a mais. E ainda que molhasse, o que importava? Sua cabeça estava à salvo das gotas de chuva, porque sempre que chovia havia ao seu lado uma senhora muito séria empunhando toda a sua braveza nas gentilezas de um guarda-chuva.
14.7.10
A tempestade
Foi num dia em que o céu estava coberto pelas nuvens violentas, e ela teve muito medo do mundo. O mundo que se empunha sério, com toda a sua matemática, toda a sua lógica, todos os seus conceitos e regras. O mundo que não admitia mudanças. É assim que é, e terá que ser. Raquel encolheu-se no canto do seu quarto e procurou pelas prateleiras algo que não via há tempo. Não era simplesmente algo que ocupava um lugar ali, era algo que lhe trazia segurança, uma espécie de refúgio. Pousou os olhos nas prateleiras agora preenchidas por livros que na maioria das vezes só lhe davam breves momentos de euforia. E que, ao invés de estreitar os abismos que existia entre ela e seus sonhos, só abriam uma fenda muito mais profunda. Tão profunda que já não se podia mais ver o fim.
Perdida entre devaneios, mergulhou nas águas de agosto de um ano muito remoto. Era seu aniversário, e pela primeira vez quis escolher o seu presente. Não que o tivesse em mente. Queria encontrar um brinquedo que a escolhesse. Já havia lido em muitos livros (hábito que cultivara desde a infância) histórias incríveis de bonecos que falavam, andavam, sentiam como gente. Não acreditava nesse mundo encantado, mas sabia que no seu mundo ideial tudo poderia acontecer. Entrou numa loja. Foi então que seus olhos encontraram os olhos de um boneco de lata. O boneco estava muito escondido, e ela logo percebeu que ele também guardava muitos medos no seu interior de lata. Então eles se escolheram. O boneco passou a ser da menina, da mesma forma que ele a tinha como sua.
E por se pertencerem, não existia entre os dois nenhum tipo de egoísmo, ciúmes, ou essas coisas ruins que, quando há uma fresta, impedem que o amor encontre um lugar entre dois. Porque o amor só precisa disso: dois corações encostados um no outro, dispostos a sentirem e compartilharem tudo o que há dentro deles. Desde então, Raquel nunca mais se sentiu só, porque sabia que quando chegasse cansada da escola, de tanto correr e de tanto ser caçoada, poderia contar com seu boneco de lata, que a esperava com um grande sorriso metálico na sua prateleira. Encontrou refúgio nele para todos os momentos, inclusive nos dias em que o céu estava coberto por nuvens violentas, e ela tinha muito medo do mundo. Desde que encontrou seu homem de ferro, não teve mais medo de nada. Nem quando trovejou ou os raios faiscaram ferozes. Nem quando o céu fez menção de desabar. Depois desse dia, havia sempre um boneco muito reluzente, tão reluzente quando um raio vindo do céu, empunhando o seu carinho na sutileza de um abraço frio.
Perdida entre devaneios, mergulhou nas águas de agosto de um ano muito remoto. Era seu aniversário, e pela primeira vez quis escolher o seu presente. Não que o tivesse em mente. Queria encontrar um brinquedo que a escolhesse. Já havia lido em muitos livros (hábito que cultivara desde a infância) histórias incríveis de bonecos que falavam, andavam, sentiam como gente. Não acreditava nesse mundo encantado, mas sabia que no seu mundo ideial tudo poderia acontecer. Entrou numa loja. Foi então que seus olhos encontraram os olhos de um boneco de lata. O boneco estava muito escondido, e ela logo percebeu que ele também guardava muitos medos no seu interior de lata. Então eles se escolheram. O boneco passou a ser da menina, da mesma forma que ele a tinha como sua.
E por se pertencerem, não existia entre os dois nenhum tipo de egoísmo, ciúmes, ou essas coisas ruins que, quando há uma fresta, impedem que o amor encontre um lugar entre dois. Porque o amor só precisa disso: dois corações encostados um no outro, dispostos a sentirem e compartilharem tudo o que há dentro deles. Desde então, Raquel nunca mais se sentiu só, porque sabia que quando chegasse cansada da escola, de tanto correr e de tanto ser caçoada, poderia contar com seu boneco de lata, que a esperava com um grande sorriso metálico na sua prateleira. Encontrou refúgio nele para todos os momentos, inclusive nos dias em que o céu estava coberto por nuvens violentas, e ela tinha muito medo do mundo. Desde que encontrou seu homem de ferro, não teve mais medo de nada. Nem quando trovejou ou os raios faiscaram ferozes. Nem quando o céu fez menção de desabar. Depois desse dia, havia sempre um boneco muito reluzente, tão reluzente quando um raio vindo do céu, empunhando o seu carinho na sutileza de um abraço frio.
24.6.10
Conto de humanos
Era uma vez um leitor curioso pela história de um livro. Era uma vez um livro curioso pelos olhos daquele leitor. Era uma vez a história de um. Era uma vez a história de outro. Era pra ser uma história de dois. Mas porque ninguém se rendeu, não houve história lida. Nem leitor satisfeito. Então o livro ficou de lado, esperando qualquer olhar que se rendesse e o abrisse, que o despisse e o percorresse e ficasse satisfeito com a sua história. Mas o leitor cansou de tudo isso, e pensou em virar escritor.
Era uma vez um homem que já não era mais leitor, e que ainda não era escritor: era apenas um homem. Era uma vez um papel, uma caneta e dois personagens que ainda não haviam sido criados. Um dia o homem quis esquecer quem era. Quis esquecer o dia em que nasceu, de que mãe havia saído, qual tinha sido seu primeiro tombo e de quantas feridas já havia se recuperado. Repare bem: a casquinha é a tampa do abismo que é a ferida. Então o homem, que até então não era mais leitor e que iria se tornar narrador, achou papel e caneta numa gaveta qualquer, onde guardava coisas que não lhes eram necessárias. Por que guardar coisas velhas? Ora! A gente guarda tanta coisa que deveria estar tão longe.
Era uma vez um narrador que criou dois personagens. Era uma vez dois personagens com vidas diferentes, histórias diferentes, e principalmente olhos diferentes. Um tinha uns olhos puxados assim pro lado de dentro, que chorava pra dentro, e que também olhava além corpo. Chegava até o lado de dentro do outro. Já o outro tinha olhos. Apenas olhos. E porque os pés dos personagens andavam por lugares diferentes, eles nunca poderiam tombar um com o outro.
Era uma vez uma história forçada. Dois contra um. O narrador insistindo no encontro, e dois personagens que nunca se encontrariam. E puxaram de um lado, o narrador puxou do outro. E puxaram, puxaram, puxaram, até que as linhas do papel se quebraram. E houve uma grande explosão de tinta de caneta. Tinta no teto, nas paredes, na mesa do narrador... Então a história que nunca tinha chance de acontecer escorregou pelas mãos do ex-leitor-homem-narrador e foi pingando, pingando. E como uma história podia ir pingando assim nos dedos e regando, sem intenção, uma terra? Querendo fazer brotar palavra, frase, vírgula, ponto final.
Pula linha.
Travesão.
- Desisto.
A palavra ecoou por muito tempo no quarto do que era um leitor, que virou apenas homem, se tornou narrador, e agora era só um. Um. Só um espaço vazio. Só uma entrelinha implícita.
Mas tentou tomar forma de narrador novamente. E o narrador, ao consertar o espaço, puxar a linha do tempo e dar voz aos personagens, não percebeu que eram só uma bolinha de papel amassado.
Era uma vez um homem que já não era mais leitor, e que ainda não era escritor: era apenas um homem. Era uma vez um papel, uma caneta e dois personagens que ainda não haviam sido criados. Um dia o homem quis esquecer quem era. Quis esquecer o dia em que nasceu, de que mãe havia saído, qual tinha sido seu primeiro tombo e de quantas feridas já havia se recuperado. Repare bem: a casquinha é a tampa do abismo que é a ferida. Então o homem, que até então não era mais leitor e que iria se tornar narrador, achou papel e caneta numa gaveta qualquer, onde guardava coisas que não lhes eram necessárias. Por que guardar coisas velhas? Ora! A gente guarda tanta coisa que deveria estar tão longe.
Era uma vez um narrador que criou dois personagens. Era uma vez dois personagens com vidas diferentes, histórias diferentes, e principalmente olhos diferentes. Um tinha uns olhos puxados assim pro lado de dentro, que chorava pra dentro, e que também olhava além corpo. Chegava até o lado de dentro do outro. Já o outro tinha olhos. Apenas olhos. E porque os pés dos personagens andavam por lugares diferentes, eles nunca poderiam tombar um com o outro.
Era uma vez uma história forçada. Dois contra um. O narrador insistindo no encontro, e dois personagens que nunca se encontrariam. E puxaram de um lado, o narrador puxou do outro. E puxaram, puxaram, puxaram, até que as linhas do papel se quebraram. E houve uma grande explosão de tinta de caneta. Tinta no teto, nas paredes, na mesa do narrador... Então a história que nunca tinha chance de acontecer escorregou pelas mãos do ex-leitor-homem-narrador e foi pingando, pingando. E como uma história podia ir pingando assim nos dedos e regando, sem intenção, uma terra? Querendo fazer brotar palavra, frase, vírgula, ponto final.
Pula linha.
Travesão.
- Desisto.
A palavra ecoou por muito tempo no quarto do que era um leitor, que virou apenas homem, se tornou narrador, e agora era só um. Um. Só um espaço vazio. Só uma entrelinha implícita.
Mas tentou tomar forma de narrador novamente. E o narrador, ao consertar o espaço, puxar a linha do tempo e dar voz aos personagens, não percebeu que eram só uma bolinha de papel amassado.
Dentro da bolinha de papel amassado, jogada no cesto, dois personagens corriam campos inteiros, corriam os prados e planícies de mãos dadas. Contavam estrelas deitados sobre a grama, passavam o dedo no céu e - engraçado - havia uma poerinha de lua nos seus dedos.
Era uma vez um que havia feito uma história de dois. Então, despiu-se da roupa de narrador e decidiu que precisava ser apenas humano. Que poderia pegar todas as palavras que ficaram no teto, na mesa, embaixo do pé e escrever uma carta pra refazer uma história. Uma história de um e de outro que se amavam. Uma história de humanos.
Era uma vez...
P.S: Queridos, se essa já é a milésima vez que você lê, lê, lê, e não entende nada, não se preocupe: a culpa é minha. Me desculpem a confusão desses dias. Mas eu acredito que isso passa. Passa, passa. Passa porque até uva passa! :p
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