4.8.10

O Espetáculo, parte II

(...) Mas aquela bailarina era mesmo perfeita. Nunca iria olhar para mim, um pobre palhaço atrapalhado, que não sabe falar nada bonito que a encante. Não tenho nem um pouquinho de graça ao lado da doçura dela...- Era o que o Palhaço Assobio ficava pensando sempre ao final das apresentações, quando o circo não passa de uma tenda, habitação de humanos e mortais.
Mas ele a amava tanto, e tão sinceramente, e com tanta reserva, que nem chegava a desejá-la. Era um amor que não exigia maiores aproximações, não sonhava com a posse nem com a presença consentida, consciente e concreta do bem amado. Amava-a com tanta precaução, que sempre ao final da sua apresentação cuidava para que ela não o visse ali, com cara de bobo, com um sorriso que ia de uma ponta a outra do rosto. Ficava ali sentado acompanhando atenciosamente os passos da sua Bailarina. E a melhor parte era quando ela começava a rodopiar, a rodopiar, a rodopiar...
Mas na noite passada havia sido diferente. Com todo o descuido que tinha guardado consigo, tropeçou numa enorme caixa e espatifou-se em cima dos manequins. Foi exatamente na hora em que a Bailarina saía do palco, e encaminhava-se pro seu camarim.
- Você está bem?
O Palhaço logo reconheceu aquela boca estrelada. Não era possível! Sua Bailarina estava ali, de mãos estendidas, o ajudando...
- Sim! É que. Eu estou bem sim. É. Eu sou um pouco desastrado e acabei fazendo esse estrago!
Sentiu as faces coradas, e um calor que nunca havia sentido, nas bochechas tingidas. Mas então a música, nunca ouvida antes - e ah, como era belissíssima! - soou aos seus ouvidos. Penetrou-lhe os tímpanos, o cérebro, o coração, atingiu o estômago como um soco. Um soco e um abraço simultanêos. E nem teve tempo de apreciá-la direito, e ela já havia acabado. Enquando se levantava desajeitado, tentando arrumar a bagunça, viu a Bailarina indo embora, com um sorriso no canto da boca.
Desde ontem não ouviu outra coisa a não ser a risada da Bailarina. E quando quis dormir, não pôde, pois havia uma Bailarina em seus olhos. Quis pedir que ela, por favor, deixasse-o dormir, mas havia uma Bailarina atravessada na sua garganta.
Ah, minha doce Bailarina!

7 comentários:

Jaci Macedo disse...

ah, adorei ^^ li o texto anterior e achei lindo. escreveste muito bem, coração (:
beijos.

Jaci Macedo disse...

ah, adorei ^^ li o texto anterior e achei lindo. escreveste muito bem, coração (:
beijos.

P. Ferreira Garcia disse...

Hmm, como mexe com a gente as tais paixões platônicas.. Que linda a história, adorei *-*

beijos

GABRIEL, gustavo disse...

É difícil quando a gente a vê em todos os cantos.

Ah, como é difícil dormir.

Rodolpho Padovani disse...

Cada vez mais lindo esse seu conto, gostei muito dessa segunda parte e como eu disse antes, torço para os dois...

Bjs e até a próxima =)

Bell Souza disse...

Esse amor assim tão nossa, às vezes é bem melhor do que o amor retribuido. bom texto e obrigada pela força lá no blog. bjs

Babi Leão disse...

Sem palavras... to chorando...